Enraizados na videira: o Sangue de Cristo e a estabilidade beneditina
Foto: Ícone “Cristo, a videira verdadeira” (Ἡ Ἄμπελος) — arte bizantinaA médica cardiologista e teóloga Maria Elizabeth Ferreira une o primeiro voto da profissão monástica — a estabilidade — à teologia paulina do Precioso Sangue: permanecer é estar enraizado na videira que é Cristo.
A estabilidade, primeira palavra da profissão monástica
A estabilidade é o primeiro elemento mencionado por São Bento ao descrever o conteúdo da profissão monástica (RB 58,17). Portanto, a estabilidade beneditina sempre foi a “chave” na vida do monge. O seu compromisso central é viver com a comunidade até a morte; é ser “admitido na comunidade” (RB 58,14.23).
Esta pertença tem ressonâncias ascéticas e místicas, “de modo que, não nos separando jamais do seu magistério e perseverando no mosteiro, sob a sua doutrina, até a morte, participemos, pela paciência, dos sofrimentos do Cristo, a fim de também merecermos ser coerdeiros de seu reino” (Regra de São Bento, Prólogo, 50).
Mais do que geografia: permanecer é converter-se
Claro que São Bento, ao mencionar a estabilidade, refere-se a manter-se naquele mosteiro por toda a existência do monge. Mas, além do sentido geográfico, a estabilidade cenobítica é a perseverança na conversatio — a mudança radical de vida — e na obediência, prometendo viver na comunidade de sua profissão monástica por toda a sua vida.
Abraçar este tipo de permanência implica entregar totalmente a própria vida a Jesus Cristo, mediante um processo de saída de si mesmo para centrar, cada vez mais, a própria vida Nele — porque Jesus é a razão de ser da comunidade.
São Paulo, o teólogo do Precioso Sangue
São Paulo foi o primeiro teólogo do Precioso Sangue de Cristo e o maior teólogo da história da Igreja, porque reuniu uma profunda formação na Sagrada Escritura — era fariseu, da tribo de Benjamim, discípulo de Gamaliel — a uma experiência transformadora do Cristo Ressuscitado e a uma longa maturação espiritual, que lhe permitiu reinterpretar toda a história da salvação à luz do Mistério Pascal.
São Paulo contemplou o acontecimento de Cristo com os olhos da Escritura e, iluminado pelo Espírito Santo — o seu “pedagogo” —, revelou à Igreja o significado profundo da sua morte de cruz (cf. Fl 2,8), do seu sangue derramado e da sua Ressurreição. É Paulo quem nos revela o valor salvífico da morte e da Ressurreição, explicando às suas comunidades — e a nós também — o verdadeiro sentido do Precioso Sangue de Cristo.
“Permanecei em mim”: a videira e os ramos
Jesus, no Quarto Evangelho, exorta-nos a permanecer Nele: “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós” (Jo 15,4), porque “sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5). Perseverar no amor de Deus… permanência é solidez, constância, fidelidade.
São Paulo, em suas cartas, escreve “em Cristo” cerca de 160 vezes. Ora, quando alguém repete tantas vezes, em tão curto espaço de escrita, um mesmo termo, é sinal de que ele está de tal modo plasmado, tão “enraizado” na videira que é Cristo — unido pelo seu sangue, que é a vida de todo o corpo e da alma —, que dele não consegue falar de outro modo. Paulo deixou-se amar por Jesus, à semelhança de São João, o discípulo amado.
“Enraizados e edificados Nele”
Deus dá o que Ele é para o homem — sem que isso seja direito do homem, mas por sua pura Graça: a Misericórdia, o Amor. “Deus é Amor” (1Jo 4,8). Permanecer em Cristo é comungar o seu Corpo e beber o seu Sangue na Eucaristia; é suportar todo sofrimento por Aquele que se deu por inteiro a nós, “enraizados e edificados Nele, inabaláveis na fé em que fostes instruídos” (Cl 2,7).
São João permaneceu na cruz junto a Maria Santíssima, diante de injúrias, medos, tristeza e blasfêmias; mas ele permaneceu… deixou-se ser amado por Deus.
Como São Paulo e São João, São Bento também “guardou a fé” (2Tm 4,7). Portanto, permaneçamos em Cristo, sob a sua Cruz, “escondidos” em suas Chagas, “inebriados” pelo seu Sangue. À semelhança de São Paulo, possamos também dizer:
“Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. Resta-me agora receber a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas a todos aqueles que aguardam com amor a sua aparição.”
— 2Tm 4,7-8
Que em tudo seja Deus glorificado (RB 57,9).
Enraíze-se também você: leia hoje um capítulo de São Paulo na Bíblia do Ora et Labora e peça a graça de permanecer — na oração, na comunidade e no lugar onde Deus o plantou.
Perguntas frequentes
O que é a estabilidade beneditina?
A estabilidade é o primeiro elemento mencionado por São Bento ao descrever a profissão monástica (RB 58,17). Por ela, o monge se compromete a viver com aquela comunidade até a morte. Além do sentido geográfico — permanecer naquele mosteiro —, é a perseverança na obediência e na conversão de vida, entregando a própria existência a Cristo.
O que significa “conversatio” na Regra de São Bento?
“Conversatio” é a mudança radical de vida prometida pelo monge: um processo contínuo de sair de si mesmo para centrar a própria vida em Jesus Cristo, que é a razão de ser da comunidade. Caminha junto com a estabilidade e a obediência, formando o conteúdo da profissão monástica.
Por que São Paulo é chamado o teólogo do Precioso Sangue?
Porque foi ele quem revelou à Igreja o valor salvífico da morte e da Ressurreição de Cristo, explicando às suas comunidades o sentido profundo do sangue derramado na cruz (cf. Fl 2,8). Fariseu formado por Gamaliel e transformado pelo encontro com o Ressuscitado, Paulo releu toda a história da salvação à luz do Mistério Pascal.





