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Temperamento e vocação: o que ele ajuda a discernir

O temperamento descreve a matéria com que Deus trabalha, e não a vocação que Ele chama. Como usar essa chave no discernimento sem transformá-la em sentença.

João Guilherme FerreiraJoão Guilherme Ferreira4 min de leitura
Cruz de madeira escura na fachada branca de uma capela, com um banco de pedra à frenteFoto: Pixabay
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Quem estuda os quatro temperamentos chega cedo a uma pergunta prática. Se eu sou colérico, a minha vocação é liderar? Se sou melancólico, é o claustro? A pergunta é honesta e a resposta é curta. O temperamento descreve a matéria com que Deus vai trabalhar. A vocação é o que Ele decide fazer com ela.

O que o temperamento diz

O temperamento é a disposição natural com que uma pessoa reage ao que lhe acontece. Diz com que rapidez ela se comove e quanto tempo a impressão permanece nela. É informação real e útil. Explica por que duas pessoas de fé igual, diante da mesma dificuldade, reagem de modo oposto, e por que a mesma prática espiritual sustenta uma e cansa a outra.

Por isso conhecer o próprio temperamento muda o discernimento vocacional. Ele descreve com honestidade o veículo, e deixa o destino de fora. Quem sabe que se entusiasma fácil desconfia do próprio entusiasmo. Quem sabe que rumina no escuro deixa de tomar a ruminação por discernimento.

O que ele não decide

A vocação vem de fora. É chamado, e um chamado se escuta, não se deduz da própria natureza. A Igreja tem santos dos quatro temperamentos, e em estados de vida muito diferentes, o que encerra a discussão sobre perfis. São Bento, de traços fleumáticos, é o patriarca do monaquismo ocidental. Santa Catarina de Sena, de traços coléricos, enfrentou príncipes e cardeais sem temor. Santa Teresa Benedita da Cruz levou a interioridade melancólica ao Carmelo e ao martírio em Auschwitz. São João Bosco fundou uma congregação inteira sobre a alegria sanguínea.

Nenhum dos quatro está mais perto ou mais longe da santidade. O que muda é o caminho, e as pedras que aparecem nele.

Onde o temperamento realmente ajuda

A utilidade do temperamento no discernimento está em nomear a armadilha. Cada jeito de ser tem um modo típico de se enganar quando se põe a discernir, e reconhecer o próprio é meio caminho.

O sanguíneo confunde entusiasmo com chamado

Depois de uma missa bonita ou de um retiro forte, o sanguíneo já se vê partindo. O afeto é sincero e curto. O remédio é o tempo. Deixe a impressão assentar por meses, mantenha o mesmo compromisso de oração nesse intervalo e veja se o desejo sobrevive ao esfriamento. Vocação que só existe no fervor sensível ainda não foi examinada.

O colérico confunde a própria vontade com a de Deus

O colérico decide rápido, e o que decide costuma acontecer. O risco é chamar de discernimento a execução de um projeto que já era seu. O sinal de alerta é a irritação com quem pondera. Aqui a obediência concreta vale mais que a oração. Submeter o plano a um direcionamento espiritual e aceitar de fato um "espere" é o único teste que o colérico não consegue falsificar.

O melancólico confunde indignidade com recusa

Ao sentir o peso do chamado, o melancólico conclui que não serve, e lê a própria pequenez como resposta de Deus. A Escritura está cheia de chamados exatamente assim, recebidos por quem se julgava incapaz. Para ele, a regra de Santo Inácio é decisiva: "em tempo de desolação, nunca fazer mudança" (Ex. Esp. 318). A decisão se toma na consolação; na desolação, apenas se persevera.

O fleumático deixa a decisão se decidir

O fleumático raramente diz não. Ele adia, e o adiamento resolve por ele. Passam-se anos, a porta se fecha por si, e nunca houve escolha. A ascese aqui é dar prazo. Marque uma data, conte-a a alguém e decida nela, mesmo sem certeza confortável.

A regra que vale para os quatro

Um chamado se verifica fora de você. Na oração perseverante, na vida sacramental, no juízo de quem acompanha a sua alma e na disponibilidade real de obedecer ao que for dito, inclusive quando for "não". O temperamento entra nessa conta como quem conhece o terreno e avisa onde o pé escorrega. Ele não assina a decisão.

Se você ainda não sabe qual é o seu, o caminho mais curto é o teste, e depois a leitura do guia do seu temperamento, que traz as virtudes a desenvolver, os vícios a evitar e os santos que percorreram o mesmo terreno. Para entender por que a graça trabalha com a natureza em vez de substituí-la, vale ler antes graça e natureza.

Perguntas frequentes

O temperamento define a vocação?

Não. O temperamento descreve a disposição natural com que a pessoa reage, e a vocação é um chamado de Deus, que não está escrito na natureza. Há santos dos quatro temperamentos, e em estados de vida muito diferentes. O temperamento ajuda a entender como você vai viver a vocação que receber, e onde vai precisar de ajuda.

Qual temperamento é melhor para a vida religiosa?

Nenhum. A pergunta parte de uma medida que não existe, porque não há temperamento mais apto à santidade. São Bento, de traços fleumáticos, e Santa Catarina de Sena, de traços coléricos, viveram de modos muito diferentes e chegaram ao mesmo fim. O que pesa no discernimento é a docilidade à graça, verificada na obediência concreta.

Como usar o temperamento no discernimento vocacional?

Use-o para reconhecer o seu modo típico de se enganar. O sanguíneo confunde entusiasmo com chamado; o colérico confunde vontade própria com vontade de Deus; o melancólico confunde indignidade sentida com sinal de recusa; o fleumático adia até que a decisão se tome sozinha. Levar isso ao direcionamento espiritual vale mais que qualquer teste.

João Guilherme Ferreira

João Guilherme Ferreira

Sócio da Anjo Comunicação, formado em Filosofia e pós-graduando em Liturgia pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro. É postulante à oblação no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro e atua há seis anos como diretor editorial da Missão Tenda do Senhor. É também idealizador e criador do aplicativo Ora et Labora, além de idealizador e coapresentador do podcast de mesmo nome.

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