Lagar Místico: significado e a convergência eucarística
O Cristo prensado como uva, e o Sangue recolhido em cálices: o Lagar Místico traduz em imagem a parábola da videira e a profecia de Isaías. Mel, oração e Sangue, três alimentos que não perecem.
Etapa 7 de 7 da trilha Simbolismo e Liturgia
Foto: Marek Studzinski, UnsplashNeste artigo
Resta articular um último motivo. A abelha produz o mel; o lagar produz o vinho. Essa dupla produção encontra na economia eucarística sua unidade. Este texto fecha a série aberta por A abelha como animal litúrgico.
O que é o Lagar Místico#
O Lagar Místico é um tópos iconográfico de larga difusão na arte cristã medieval e moderna, fundado na leitura tipológica da parábola da videira (Jo 15,1-8) e da profecia de Isaías (Is 63,1-3). Nele o Cristo é representado, a um só tempo, como vinhateiro e como uva: aquele que cuida da vinha e aquele que é, ele próprio, espremido sob o peso do madeiro, transformado em lagar. Da prensa escorre o Sangue mesmo do Filho, entregue, segundo a palavra do Evangelho de João, como "verdadeira comida e verdadeira bebida" (Jo 6,55).
A iconografia traduz a cena com vigor. O Cristo, debaixo de uma prensa, é esmagado, e seu Sangue é recolhido em cálices que escorrem para o altar. O quadro inteiro representa, em síntese, a celebração eucarística: onde o Filho, como uva, é esmagado, seu suco, seu Sangue, é entregue como alimento.
Difusão do motivo#
A presença do Lagar Místico está documentada em retábulos, vitrais e iluminuras desde o século XII, com particular intensificação nos séculos XV a XVII, sob o impulso da reflexão eucarística que culmina nas decisões tridentinas. As composições variam, mas a estrutura permanece. O Cristo, sob a viga ou no interior do tanque do lagar, é prensado por um madeiro que tipologicamente repete a Cruz. Ao redor, em alguns exemplares, comparecem os patriarcas, os profetas ou os apóstolos, recolhendo o Sangue em vasos litúrgicos.
Em certas versões ibero-barrocas, espacial e teologicamente próximas da tradição em que se inscreve a Abadia fluminense de Frei Rosendo, o lagar é representado lado a lado com a videira da parábola joanina, fechando o circuito entre tipo e cumprimento, entre profecia e Eucaristia. Ewa Kubiak, em artigo na Revista Coletânea, estudou modelos gráficos comuns dessa alegoria eucarística na pintura dos séculos XVII e XVIII, e a gravura de Jerônimo Wierix ilustra o tema sob o título de Lagar Místico.
Mel, oração e Sangue#
Aqui se manifesta a convergência com a abelha. O mel é o alimento que não se deteriora; a oração é o fruto que não perece; o Sangue do Cristo é o Alimento que vence a morte. Os três se ordenam segundo a mesma lógica, ascendente e analogicamente unida: do alimento natural incorruptível ao alimento sobrenatural permanente, e deste ao Alimento eterno que é o próprio Cristo. E, como mostrou o texto sobre o Precônio Pascal, a cera produzida pelas mesmas abelhas que fabricam o mel é matéria do Círio, signo daquele mesmo Cristo que se entrega no lagar.
A convergência tem razão de ser. A criação inteira, vinha, abelha e trigo, é orientada, em sua estrutura mesma, para a ação eucarística. O lavrador colhe o trigo, o vinhateiro pisa a uva, a abelha labora a cera e o mel. Três ofícios convergem para o altar, no qual o Cristo se dá em pão, em vinho e à luz da vela.
A natureza, lida pela Igreja, não é cenário neutro do culto. É co-celebrante.
O que fica da série#
Do percurso empreendido, três considerações se impõem. A abelha é animal litúrgico em sentido próprio: sua estrutura comunitária, sua disciplina de horas, seu trabalho ininterrupto e seus dois frutos incorruptíveis fazem dela espelho da Igreja e da vida monástica. A tradição da Igreja leu na criatura aquilo que sua natureza realmente oferece, e a polivalência simbólica é riqueza convergente. O Precônio Pascal e a iconografia monástica registram essa leitura com precisão, e a Carta de Frei Rosendo mostra que ela chegou, em forma erudita, à tradição beneditina brasileira.
Há ainda um dado discreto que recolhe o sentido do conjunto. Não se pode celebrar missa sem cera, afirmou a tradição medieval, e a norma litúrgica conserva até hoje essa orientação. Lida no seu rigor, a frase diz que a Eucaristia, ato pelo qual o Cristo se dá ao mundo, tem sua luz tradicionalmente vinculada ao trabalho silencioso das abelhas. A Igreja, ao subir ao altar, sobe sobre uma luz que tem por matéria o labor de uma criatura. E essa criatura vive, em seu zumbido contínuo, em sua noite recolhida, em seu favo geometricamente regular, o mesmo modo de existência que o monge professa. A abelha louva por instinto; o monge louva por consciência. A Igreja recolhe os dois louvores e os oferece ao mesmo Senhor.
Este texto integra a série Simbolismo e Liturgia, fruto de uma pesquisa produzida na Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro, onde sou aluno, sob a orientação de Dom Mauro Maia Fragoso, professor da instituição. Ele adapta, para o blog, meu artigo acadêmico "A abelha como animal litúrgico: imagem da vida monástica e prefiguração eucarística".
Referências#
- BÍBLIA SAGRADA.
- CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos.
- KUBIAK, Ewa. Alegoria da eucaristia: modelos gráficos comuns na pintura dos séculos XVII e XVIII na Polônia e no Peru. Revista Coletânea, Rio de Janeiro, v. 12, n. 24. Disponível em: revistacoletanea.com.br.
Perguntas frequentes
O que é o Lagar Místico?
Um motivo iconográfico da arte cristã medieval e moderna em que o Cristo aparece como vinhateiro e como uva prensada sob um madeiro que repete a Cruz. Seu Sangue é recolhido em cálices que escorrem para o altar, e o quadro inteiro representa a celebração eucarística.
Em que textos bíblicos se funda o Lagar Místico?
Na leitura tipológica da parábola da videira (Jo 15,1-8) e da profecia de Isaías (Is 63,1-3). O Sangue que escorre da prensa é a "verdadeira comida e verdadeira bebida" de Jo 6,55.
Qual é a relação entre o Lagar Místico e a abelha?
O mel que não se deteriora, a oração que não perece e o Sangue que vence a morte seguem a mesma lógica ascendente. E a cera das mesmas abelhas que fazem o mel é a matéria do Círio, signo do Cristo que se entrega no lagar.

João Guilherme Ferreira
Sócio da Anjo Comunicação, formado em Filosofia e pós-graduando em Liturgia pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro. É postulante à oblação no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro e atua há seis anos como diretor editorial da Missão Tenda do Senhor. É também idealizador e criador do aplicativo Ora et Labora, além de idealizador e coapresentador do podcast de mesmo nome.
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