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A colmeia, espelho da vida monástica (ora et labora)

Um Servo da TendaUm Servo da Tenda5 min de leitura
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A colmeia, espelho da vida monástica (ora et labora)Foto: Pixabay

Quando a tradição cristã olha para uma colmeia e enxerga nela a vida monástica, não se trata de mero ornamento poético. Há entre a comunidade das abelhas e a comunidade dos monges uma correspondência tão precisa que ultrapassa a metáfora: ambas vivem do binômio ora et labora — rezar e trabalhar. Se a liturgia é, por natureza, comunitária, e se a colmeia é, por sua vez, comunidade rigorosamente estruturada, então as abelhas se mostram reflexos fiéis da Igreja — e, de modo singular, da Igreja em sua expressão monástica.

A colmeia como claustro feito biologia

Considere-se primeiro a estrutura do favo. Uma mesma espécie de abelha, neste continente ou em outro, organiza-se invariavelmente para produzir favos com células hexagonais, cujas paredes alcançam aproximadamente setenta micrômetros de espessura. Tal regularidade não é casual: o hexágono é a figura geométrica que permite a maior economia de cera por unidade de volume armazenado.

Trata-se de uma ordem matemática inscrita na criatura — ordem que, na vida monástica, encontra seu correlato na arquitetura do claustro, na regularidade das celas e na disciplina dos atos comuns. A colmeia é, neste sentido, o claustro feito biologia.

Ora et labora: o zumbido e o trabalho

A esta estrutura comunitária junta-se um regime de vida cuja proximidade com o monaquismo beneditino é exata. O monaquismo de São Bento articula-se em torno do binômio ora et labora — reza e trabalha. Reza o monge mediante o canto coral das Horas; trabalha mediante o ofício manual, sustento da casa e ascese do corpo (cf. Regra de São Bento, cap. XLVIII).

Pois bem: o zumbido contínuo da colmeia é, segundo a leitura tradicional, louvor — ora; e a atividade incessante das obreiras, que extraem o pólen, fabricam o favo e elaboram o mel, é o labor — labora. A colmeia em atividade é, assim, leitura imediata da Regra: reza e trabalha, sem interrupção e sem confusão entre as duas dimensões.

As horas canônicas e o Mistério Pascal

Há ainda detalhes que reforçam a analogia. As abelhas não voam à noite. Recolhem-se à colmeia ao cair da tarde e dela só saem após o amanhecer. Tal hábito biológico ressoa de modo direto a disciplina das horas canônicas, que articula o dia monástico segundo o ritmo do sol e da oração; o silêncio noturno do recinto monástico encontra correspondência no recolhimento da colmeia.

Mais ainda: segundo a leitura recolhida por Chevalier e Gheerbrant, os três meses de inverno em que as abelhas permanecem reclusas, sem sair do recinto, simbolizam os três dias em que o Corpo de Cristo repousou no sepulcro. A vida da colmeia traz inscrita, em seu próprio calendário biológico, a estrutura do Mistério Pascal.

O mel e a graça: um fruto incorruptível

Resta o ponto mais decisivo. O produto do trabalho da abelha — o mel — não se deteriora; é o único alimento natural que conserva indefinidamente suas qualidades. Ora, o fruto do trabalho da Igreja — a oração — também não perece: persiste como graça.

O mel da abelha está para a obra natural assim como a graça está para a obra sobrenatural. Em ambos os casos, o trabalho gera um bem que excede o tempo de quem o produziu.

O paralelo é exato: o mel das abelhas mortas continua a alimentar e a curar; a oração dos santos defuntos continua a interceder.

Por escolha e por natureza

Daí a fórmula que sintetiza este eixo: o monge faz por escolha aquilo que a abelha faz por natureza. A diferença entre ambos não está na estrutura do agir — comunitário, regular, ora et labora, gerador de um fruto incorruptível —, mas no modo: a criatura cumpre por instinto a ordem que lhe foi inscrita; o monge cumpre consciente e deliberadamente, por voto, a ordem que lhe foi proposta pela Regra. A abelha é monge sem o saber; o monge é abelha que se sabe.

Este post integra a trilha da Oficina Catequética e dá continuidade à reflexão sobre A abelha como animal litúrgico, agora à luz do ideal beneditino do Ora et Labora.

Perguntas frequentes

Por que a colmeia é vista como espelho da vida monástica?

Porque a colmeia é uma comunidade rigorosamente estruturada, com ordem matemática inscrita no favo hexagonal, que corresponde à regularidade do claustro, das celas e dos atos comuns dos monges. A colmeia é, nesse sentido, o claustro feito biologia.

Qual a relação entre a abelha e os monges no ora et labora?

O zumbido contínuo da colmeia é lido como louvor (ora) e a atividade incessante das obreiras é o trabalho (labora). A colmeia em plena atividade torna-se, assim, leitura imediata da Regra de São Bento, que articula a vida monástica em torno do mesmo binômio.

O que o mel simboliza nessa analogia?

O mel é o único alimento natural que conserva indefinidamente suas qualidades, sem se deteriorar. Por isso simboliza a graça e a oração, fruto do trabalho da Igreja que não perece: o mel das abelhas mortas continua a alimentar e curar, assim como a oração dos santos defuntos continua a interceder.

Este texto integra a série "Simbolismo e Liturgia" e é baseado no artigo acadêmico de João Guilherme Ferreira Santos, "A abelha como animal litúrgico", desenvolvido no âmbito da Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro.

Se a disciplina silenciosa da colmeia o atraiu como imagem do claustro beneditino, vá direto à fonte: descubra os Apoftegmas dos Padres do Deserto no Ora et Labora e deixe a sabedoria monástica formar o seu próprio ora et labora.

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