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A colmeia, espelho da vida monástica (ora et labora)

O favo hexagonal e a arquitetura do claustro, o zumbido e o canto das Horas, o recolhimento noturno e o silêncio do mosteiro, o mel que não perece e a oração que persiste como graça.

Etapa 4 de 7 da trilha Simbolismo e Liturgia

João Guilherme FerreiraJoão Guilherme Ferreira4 min de leitura
Dezenas de abelhas trabalhando sobre um favo amarelo, entre células abertas e fechadasFoto: Simon Kadula, Unsplash
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Neste artigo

Se a liturgia é necessariamente comunitária, como mostrou o segundo texto desta série, e se a colmeia é comunidade rigorosamente estruturada, há entre ambas uma proximidade que excede a metáfora. As abelhas são reflexos fiéis da Igreja, e singularmente da Igreja em sua expressão monástica. Este é o eixo do argumento aberto em A abelha como animal litúrgico.

O favo e o claustro#

Considere-se primeiro a estrutura do favo. Uma mesma espécie de abelha, neste continente ou em outro, organiza-se invariavelmente para produzir favos de células hexagonais, cujas paredes alcançam aproximadamente setenta micrômetros de espessura. A regularidade tem razão de ser. O hexágono é a figura geométrica que permite a maior economia de cera por unidade de volume armazenado. Trata-se de uma ordem matemática inscrita na criatura.

Na vida monástica essa ordem encontra seu correlato na arquitetura do claustro, na regularidade das celas e na disciplina dos atos comuns. A colmeia é, nesse sentido, o claustro feito biologia.

Ora et labora#

À estrutura comunitária junta-se um regime de vida semelhante ao monaquismo beneditino. O monaquismo de São Bento articula-se em torno do binômio ora et labora: ora e trabalha. O monge ora mediante o canto coral das Horas e trabalha mediante o labor manual, sustento da casa e ascese do corpo (Regra de São Bento, cap. XLVIII). O zumbido contínuo da colmeia é, segundo a leitura tradicional, louvor. A atividade incessante das obreiras, que extraem o pólen, fabricam o favo e elaboram o mel, é o trabalho. A colmeia em atividade é leitura imediata da Regra: ora e trabalha, sem interrupção e sem confusão entre as duas dimensões.

A noite e o inverno#

Há detalhes que reforçam a analogia. As abelhas não voam à noite. Recolhem-se à colmeia ao cair da tarde e dela só saem depois do amanhecer. O hábito biológico ressoa a disciplina das horas canônicas, que articula o dia monástico segundo o ritmo do sol e da oração, e o silêncio noturno do recinto monástico encontra correspondência no recolhimento da colmeia.

Mais ainda. Segundo a leitura recolhida por Chevalier e Gheerbrant, os três meses de inverno em que as abelhas permanecem reclusas, sem sair do recinto, simbolizam os três dias em que o Corpo do Cristo repousou no sepulcro. A vida da colmeia traz inscrita, em seu próprio calendário biológico, a estrutura do Mistério Pascal.

O mel e a graça#

Resta o ponto decisivo do argumento. O produto do trabalho da abelha, o mel, não se deteriora. É um alimento natural que conserva indefinidamente suas qualidades. Ora, o fruto do trabalho da Igreja, a oração, também não perece: persiste como graça, segundo a expressão consagrada. O mel da abelha está para a obra natural assim como a graça está para a obra sobrenatural. Em ambos os casos o trabalho gera um bem que excede o tempo de quem o produziu. O mel das abelhas mortas continua a alimentar; a oração dos santos defuntos continua a interceder.

O monge faz por escolha aquilo que a abelha faz por natureza.

A diferença entre os dois está no modo, e não na estrutura do agir. Comunitário, regular, orante e laborioso, gerador de um fruto incorruptível, o agir é o mesmo. A criatura cumpre por instinto a ordem que lhe foi inscrita. O monge cumpre consciente e deliberadamente o que lhe foi proposto pela Regra, no dia em que a professa (Regra de São Bento, cap. LVIII). A abelha é monge sem o saber; o monge é abelha que se sabe. O próximo texto mostra onde a Igreja cantou essa intuição: no Precônio Pascal.

Este texto integra a série Simbolismo e Liturgia, fruto de uma pesquisa produzida na Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro, onde sou aluno, sob a orientação de Dom Mauro Maia Fragoso, professor da instituição. Ele adapta, para o blog, meu artigo acadêmico "A abelha como animal litúrgico: imagem da vida monástica e prefiguração eucarística".

Referências#

  • CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos.
  • SÃO BENTO. A Regra de São Bento.

Perguntas frequentes

O que a colmeia tem a ver com a Regra de São Bento?

A Regra articula a vida do monge em oração e trabalho, o ora et labora. Na colmeia, o zumbido contínuo é lido como louvor e a atividade das obreiras como labor, sem interrupção e sem confusão entre as duas dimensões.

Por que o favo é hexagonal?

O hexágono é a figura geométrica que permite a maior economia de cera por unidade de volume armazenado. Uma mesma espécie produz favos assim em qualquer continente, com paredes de aproximadamente setenta micrômetros, e essa ordem matemática encontra correspondência na regularidade do claustro.

O que significa dizer que o mel das abelhas mortas continua a alimentar?

O mel não se deteriora e conserva suas qualidades depois que as abelhas que o produziram morreram. Do mesmo modo a oração persiste como graça: a oração dos santos defuntos continua a interceder.

João Guilherme Ferreira

João Guilherme Ferreira

Sócio da Anjo Comunicação, formado em Filosofia e pós-graduando em Liturgia pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro. É postulante à oblação no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro e atua há seis anos como diretor editorial da Missão Tenda do Senhor. É também idealizador e criador do aplicativo Ora et Labora, além de idealizador e coapresentador do podcast de mesmo nome.

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