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A abelha no Precônio Pascal (Exsultet): cera e Círio

Um Servo da TendaUm Servo da Tenda5 min de leitura
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A abelha no Precônio Pascal (Exsultet): cera e CírioFoto: Pixabay

Poucos sabem que, na noite mais solene do ano cristão, a Igreja para diante de uma chama e agradece o trabalho das abelhas. Quem procura entender a relação entre o Precônio Pascal e a abelha encontra ali uma das intuições litúrgicas mais belas e antigas: o Exsultet reconhece, com palavras precisas, que a luz do Círio nasce da cera produzida por essas pequenas criaturas. Não é metáfora improvisada — é reconhecimento cantado, inscrito há séculos no anúncio pascal entoado pelo diácono diante do Círio aceso.

O canto que louva as abelhas

O Precônio Pascal, também chamado Exsultet, é o anúncio cantado pelo diácono diante do Círio aceso na noite da Vigília da Ressurreição. Em seu desenvolvimento, o canto rende graças com palavras que muitos ouvem sem perceber a profundidade do que dizem:

Agora conhecemos o sinal glorioso desta coluna de cera
que uma chama de fogo acende em honra de Deus.
Esta chama que, ao repartir o seu esplendor,
não diminui a sua luz.
Esta chama que se alimenta de cera
produzida pelo trabalho das abelhas
para formar este precioso luzeiro.

Nada em todo o ano litúrgico se equipara, em densidade simbólica, a este momento. Na noite em que celebra a Ressurreição, a Igreja agradece explicitamente o trabalho das abelhas. Não se trata de figura de retórica, mas de reconhecimento litúrgico de que o Mistério celebrado depende, em sua matéria sensível, da obra de uma criatura.

Por que o Círio é de cera

Vale notar que a palavra círio é, em sentido próprio, sinônimo de cera — designando a vela em geral, e não apenas a vela grande da Vigília. Daí a importância da matéria de que é feito. A leitura tradicional do símbolo desdobra-se em camadas que vale percorrer com calma.

A cera: matéria virgem

Primeiro, a cera é matéria virgem, produzida sem corrupção, da qual se forma o Círio. Essa pureza da matéria não é detalhe acessório: é justamente o que torna a cera digna de representar aquilo que dela se faz.

O Círio: signo de Cristo

Segundo, o Círio é signo de Cristo — coluna iluminada à imagem da coluna de fogo que, no livro do Êxodo (cf. Ex 13, 21-22), guiava o povo durante a noite.

A abelha: figura de Maria

Terceiro, a abelha que produz a cera é lida, neste momento, como figura de Maria: a virgem generosa, cujo trabalho silencioso dá forma à matéria pela qual a Luz vem ao mundo. Na economia sacramental, o ventre da Virgem é metáfora simultânea do interior da Terra — o sepulcro do Filho, donde brota a Ressurreição. A abelha labora; a Virgem gera; o Cristo ressurge.

"Não se pode celebrar missa sem cera"

Compreende-se aqui, em sua plenitude, a sentença medieval recolhida por Chevalier e Gheerbrant: não se pode celebrar missa sem cera. A frase não é piedosa licença — é constatação de fato. A celebração eucarística requer, por preceito litúrgico, velas de cera de abelha. A abelha está, portanto, materialmente presente em cada Missa: sua obra é parte da própria liturgia da Igreja.

Nenhuma criatura, no horizonte do culto cristão, ocupa lugar de tal modo central. O lavrador oferece o pão; o vinhateiro oferece o vinho; a abelha oferece a luz.

Por que chamá-la "animal litúrgico"

Daí a justeza de chamar a abelha, em sentido rigoroso, de animal litúrgico. Ela não está apenas entre as criaturas que servem à liturgia por uso ocasional, como o cordeiro pascal ou o peixe das narrativas evangélicas. Está entre as criaturas cuja obra é incorporada à própria forma do culto. Esta reflexão integra a trilha A abelha como animal litúrgico, dentro da nossa Oficina Catequética.

Perguntas frequentes

Por que o Precônio Pascal menciona a abelha?

Porque a cera que alimenta a chama do Círio é produzida pelo trabalho das abelhas. O Exsultet agradece explicitamente essa obra, reconhecendo que a luz da Vigília Pascal depende, em sua matéria, dessa criatura.

O que o Exsultet diz sobre a cera das abelhas?

O canto descreve a "coluna de cera" cuja chama "se alimenta de cera produzida pelo trabalho das abelhas para formar este precioso luzeiro" — unindo a matéria virgem da cera ao símbolo de Cristo, luz que se reparte sem diminuir.

Por que o Círio é de cera?

Porque a cera é matéria virgem, produzida sem corrupção, apta a simbolizar Cristo. A própria palavra círio é sinônimo de cera, e a tradição litúrgica pede velas de cera de abelha para a celebração.

Este texto integra a série "Simbolismo e Liturgia" e é baseado no artigo acadêmico de João Guilherme Ferreira Santos, "A abelha como animal litúrgico", desenvolvido no âmbito da Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro.

Aprofunde a leitura das passagens citadas, como Êxodo 13, na Bíblia comentada do Ora et Labora.

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