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A abelha no Precônio Pascal (Exsultet): cera e Círio

Na noite em que celebra a Ressurreição, a Igreja agradece em alta voz o trabalho das abelhas. A cera, o Círio como coluna de fogo, a abelha lida como Maria e a sentença medieval de que não se celebra missa sem cera.

Etapa 5 de 7 da trilha Simbolismo e Liturgia

João Guilherme FerreiraJoão Guilherme Ferreira4 min de leitura
Uma única vela de cera alaranjada acesa contra um fundo totalmente escuroFoto: Siddharth Kushwaha, Unsplash
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Neste artigo

A intuição desenvolvida nos textos anteriores, e sobretudo na leitura da colmeia como espelho do mosteiro, encontra-se inscrita num dos cantos mais antigos da Igreja. Refiro-me ao Precônio Pascal, também chamado Exsultet, o anúncio que o diácono canta diante do Círio aceso na noite da Vigília da Ressurreição. Em seu desenvolvimento, o canto agradece com estas palavras:

Agora conhecemos o sinal glorioso desta coluna de cera / que uma chama de fogo acende em honra de Deus. / Esta chama que, ao repartir o seu esplendor, / não diminui a sua luz. / Esta chama que se alimenta de cera / produzida pelo trabalho das abelhas / para formar este precioso luzeiro.

A Igreja agradece o trabalho de uma criatura#

Poucos momentos do ano litúrgico se equiparam, em densidade simbólica, a este. Na noite em que celebra a Ressurreição, a Igreja agradece o trabalho das abelhas. Há aí um reconhecimento litúrgico explícito de que o Mistério celebrado está representado e simbolizado, em sua matéria sensível, pela obra de uma criatura.

Convém precisar o alcance da afirmação. Na prática atual o círio é frequentemente fabricado com matéria sintética, sem que os fiéis se deem conta disso. A relação entre o Mistério e o trabalho das abelhas é, portanto, de ordem simbólica e tradicional, e não de dependência material estrita. Registre-se ainda que o termo círio, conforme o Vocabulario Portuguez e Latino de Raphael Bluteau (1712-1728), designa a vela de cera em geral, o que inclui a grande vela pascal sem se limitar a ela. Isso amplia a presença da abelha no culto para além da Vigília.

Três camadas de leitura#

A leitura tradicional desdobra-se em camadas. Primeiro, a cera é matéria: matéria virgem, produzida sem corrupção, da qual se faz o Círio. Segundo, o Círio é signo de Cristo, coluna iluminada à imagem da coluna de fogo que, no livro do Êxodo, guia o povo durante a noite (Ex 13,21-22). Terceiro, a abelha que produz a cera é lida como Maria, a virgem generosa cujo trabalho silencioso dá forma à matéria pela qual a Luz vem ao mundo. O ventre da Virgem é, na economia sacramental, metáfora simultânea do interior da Terra, o sepulcro do Filho, de onde brota a Ressurreição. A abelha labora; a Virgem gera; o Cristo ressurge.

Não se pode celebrar missa sem cera#

Compreende-se aqui, em sua plenitude, a sentença medieval recolhida por Chevalier e Gheerbrant e já citada no texto sobre a tradição cristã: não se pode celebrar missa sem cera. A frase exprime uma norma tradicional. A celebração eucarística requer, por preceito litúrgico, velas de cera de abelha. A abelha está, portanto, tradicionalmente presente em cada Missa, e sua obra é parte da própria liturgia da Igreja. Poucas criaturas, no horizonte do culto cristão, ocupam lugar tão central.

O lavrador oferece o pão; o vinhateiro oferece o vinho; a abelha oferece a luz.

O cordeiro, por sua vez, não é oferecido pela criatura que trabalha. Ele figura o próprio Cristo imolado. Daí a justeza de chamar a abelha, em sentido rigoroso, animal litúrgico. Ela está entre as criaturas cuja obra é incorporada à própria forma do culto, e nisso se distingue das criaturas que servem à liturgia apenas como figura, como o cordeiro que remete ao Cristo imolado ou o peixe das narrativas evangélicas. O próximo texto mostra essa leitura gravada numa capitular beneditina do Rio de Janeiro, em 1677.

Este texto integra a série Simbolismo e Liturgia, fruto de uma pesquisa produzida na Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro, onde sou aluno, sob a orientação de Dom Mauro Maia Fragoso, professor da instituição. Ele adapta, para o blog, meu artigo acadêmico "A abelha como animal litúrgico: imagem da vida monástica e prefiguração eucarística".

Referências#

  • BÍBLIA SAGRADA.
  • BLUTEAU, Raphael. Vocabulario Portuguez e Latino. Coimbra; Lisboa: Collegio das Artes da Companhia de Jesu; Officina de Pascoal da Sylva, 1712-1728. 8 v.
  • CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos.
  • VIGÍLIA PASCAL. Precônio Pascal (Exsultet). In: Missal Romano.

Perguntas frequentes

O que é o Precônio Pascal?

É o canto, também chamado Exsultet, que o diácono entoa diante do Círio aceso na Vigília da Ressurreição. Nele a Igreja agradece a chama "que se alimenta de cera produzida pelo trabalho das abelhas".

Por que o Círio Pascal é de cera de abelha?

Porque a cera é matéria virgem, produzida sem corrupção, e o Círio é signo de Cristo, coluna iluminada à imagem da coluna de fogo do Êxodo (Ex 13,21-22). Na prática atual muitos círios são de matéria sintética, e a relação é de ordem simbólica e tradicional.

O que significa "não se pode celebrar missa sem cera"?

É uma sentença medieval, recolhida por Chevalier e Gheerbrant, que exprime uma norma tradicional: a celebração eucarística requer velas de cera de abelha. Por isso a abelha está tradicionalmente presente em cada Missa.

João Guilherme Ferreira

João Guilherme Ferreira

Sócio da Anjo Comunicação, formado em Filosofia e pós-graduando em Liturgia pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro. É postulante à oblação no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro e atua há seis anos como diretor editorial da Missão Tenda do Senhor. É também idealizador e criador do aplicativo Ora et Labora, além de idealizador e coapresentador do podcast de mesmo nome.

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