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Ora et Labora: o “coração” da Regra de São Bento

A médica cardiologista e teóloga Maria Elizabeth Ferreira contempla o coração — o que a anatomia descreve e o que a fé revela — à luz do lema beneditino ora et labora.

Maria Elizabeth FerreiraMaria Elizabeth FerreiraPublicado em Atualizado em 3 min de leitura
Modelo anatômico de um coração humano sobre uma baseFoto: Ali Hajiluyi, Unsplash
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A médica cardiologista e estudante de Teologia Maria Elizabeth Ferreira contempla o coração — o que a anatomia descreve e o que a fé revela — à luz do lema beneditino ora et labora.

A devoção e a teologia em torno do Coração de Jesus têm longa tradição na Igreja Católica. Segundo Benedictus van Haeften, em sua obra Schola cordis — a “escola do coração” —, Deus, que criou o ser humano com um coração de carne, conduz à instrução do coração desviado d’Ele (tornando-se endurecido) e que se volta para Ele em um caminho estreito e pedregoso de seguimento ao Mestre Jesus.

O coração por dentro: anatomia de um órgão mediano

Do ponto de vista anatômico, o coração é órgão mediano e anterior, deitado sobre o diafragma entre os dois pulmões, por trás da couraça esternocostal, no mediastino anterior. Só a sua ponta é que está à esquerda; a sua base, porém, ultrapassa, à direita, o esterno.

A “bomba” que nunca para: o coração e o ora et labora

De maneira sucinta, a fisiologia do coração funciona da seguinte forma: no ser humano, ele começa a se formar com setenta dias de concepção e só na morte física parará de contrair-se. É a “bomba” que carreia o sangue para todo o corpo — seus órgãos e sistemas —, desde a cabeça até a ponta dos pés. Leva a vida a todas as células do corpo (mais de 35 trilhões). O sangue carreia o oxigênio através das hemácias, os glóbulos vermelhos, bem como os demais nutrientes, além de conter toda a informação genética. Este ciclo se repete cerca de 100.000 vezes por dia, sem parar. É o órgão do ora et labora, segundo o lema da Regra de São Bento, em que a espiritualidade e a rotina diária se completam.

A oração dá sentido à vida existencial, à família, à disciplina e à ordem. E ela dá sentido ao trabalho, transformando-o em ação e forte propósito, como foco e perseverança.

O coração como cálice: a doação de Cristo

Jesus escolheu o coração como órgão de doação, de sacrifício. Do ponto de vista espiritual, o coração é o cálice eucarístico para o Cristo. Santos místicos “entraram” no Coração de Jesus e beberam da “fonte que jorra para a vida eterna” (Jo 4,14). E é este coração, um campo aberto a ser lavrado, semeado e regado para dar muitos frutos, até ser conduzido a uma via unitiva com o Deus Trindade, em uma ascensão espiritual — como um “voo” do coração para realidades celestes que “o olho não viu, nem o ouvido ouviu, nem o coração do homem penetrou, o que Deus preparou para os que O amam” (1Cor 2,9).

“Um com Ele e Ele conosco”: o zênite espiritual

Esta “perfeição espiritual” do nosso coração com o Coração aberto e dilatado de Jesus — em um verdadeiro “banho de sangue” — torna-nos “um com Ele e Ele conosco” (Jo 6,56), num zênite espiritual para a vida eterna.

Perguntas frequentes

O que significa “ora et labora”?

“Ora et labora” é uma expressão latina que significa “reza e trabalha”. É o lema associado à Regra de São Bento, no qual a oração e o trabalho diário se completam: a oração dá sentido ao trabalho, e o trabalho se torna também uma forma de louvor a Deus.

Por que o coração é chamado o “órgão do ora et labora”?

Porque, sem cessar, ele une descanso e esforço: contrai-se cerca de 100 mil vezes por dia para levar a vida a todas as células do corpo. Nessa incansável fidelidade, torna-se imagem da vida cristã, em que oração e ação caminham juntas — e do Coração de Jesus, que se fez doação.

Maria Elizabeth Ferreira

Maria Elizabeth Ferreira

Médica cardiologista com mestrado em Cardiologia pela UFF, livre-docente da Universidade Estácio de Sá e graduanda em Teologia pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro.

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