O cálice e o corvo: os milagres de São Bento gravados na medalha
Os episódios gravados na frente da Medalha de São Bento vêm dos Diálogos de São Gregório Magno: o cálice de veneno partido ao sinal da cruz, o corvo que levou o pão envenenado e o combate do santo em Subiaco e Monte Cassino.
Etapa 1 de 4 da trilha A Medalha de São Bento
Foto: Il Sodoma, "Como Bento parte com o sinal da cruz o copo envenenado" (afresco, 1505-1508), Monte Oliveto Maggiore. Reprodução: Wikimedia Commons (domínio público)Neste artigo
A frente da Medalha de São Bento mostra o santo de pé, com a cruz numa mão e a Regra na outra. Perto dele aparecem dois objetos estranhos a quem nunca ouviu a história: um cálice partido de onde escapa uma serpente e um corvo diante de um pedaço de pão. Os dois vêm de episódios precisos da vida de São Bento de Núrsia, narrados por São Gregório Magno, e é essa memória que fez do santo um intercessor invocado no combate espiritual.
Quase tudo o que sabemos da vida de Bento está no livro II dos Diálogos, escrito pelo Papa São Gregório Magno por volta do ano 593, uns cinquenta anos após a morte do santo. Gregório declara ter recolhido o testemunho de quatro abades que conviveram com ele. Desse relato saíram as cenas que os artistas pintaram durante séculos e que a medalha resume em poucos traços.
A gruta de Subiaco
Nascido por volta de 480 em Núrsia, na Itália central, irmão de Santa Escolástica, Bento foi enviado a Roma para estudar. A vida dissoluta da cidade o fez desistir dos estudos e da herança. Retirou-se primeiro para a aldeia de Enfide e depois para uma gruta em Subiaco, onde viveu três anos como eremita. Um monge chamado Romano lhe descia pão por uma corda, pois quase ninguém sabia do seu paradeiro.
Foi ali que começou o combate que os Diálogos registram. Um dia, conta Gregório, um melro pôs-se a voar tão perto do seu rosto que Bento poderia tê-lo apanhado com a mão; o santo fez o sinal da cruz e a ave partiu. Em seguida veio uma tentação da carne tão violenta, acesa pela lembrança de uma mulher vista em Roma, que ele pensou em abandonar o deserto. Venceu-a atirando-se nu num matagal de espinhos e urtigas. Dali em diante, escreve Gregório, essa tentação nunca mais o dominou.
O cálice que se partiu
Anos depois, os monges de um mosteiro vizinho, em Vicovaro, perderam o superior e insistiram para que Bento assumisse o lugar. Ele avisou que o modo de vida deles não se acertaria com o seu. Aceitou por fim, e a disciplina que impôs azedou a comunidade a ponto de alguns misturarem veneno ao seu vinho.
Quando lhe apresentaram o vaso de vidro para a bênção da mesa, Bento traçou o sinal da cruz e o vaso se partiu, conta Gregório, como se tivesse recebido uma pedrada. O santo compreendeu o que o recipiente continha, repreendeu os irmãos sem perder a serenidade e voltou para a sua solidão. É esse o cálice gravado na medalha. A serpente que sai dele é o sinal do veneno e de quem o inspirou.
O corvo e o pão envenenado
O segundo atentado veio de um padre chamado Florêncio, roído de inveja pela fama do homem de Deus. Ele enviou a Bento um pão envenenado como quem envia um presente. O santo percebeu e, na hora em que um corvo costumava vir do bosque receber pão de suas mãos, ordenou à ave que levasse aquele pão para onde nenhum homem pudesse encontrá-lo. O corvo crocitou, rodeou o pão de asas abertas, hesitou. Diante da ordem repetida, tomou-o no bico e partiu; três horas depois voltou para receber a ração de costume.
Florêncio não parou, e passou a atacar as almas dos discípulos. Bento preferiu retirar-se a alimentar a rivalidade. Estava a caminho quando o terraço em que o padre se encontrava desabou. Ao saber da morte, o santo chorou pelo perseguidor e impôs penitência ao discípulo que se alegrara com a notícia.
Monte Cassino
A partida de Subiaco levou Bento ao monte Cassino, onde ainda havia um templo de Apolo cercado de bosques de sacrifício. O santo quebrou o ídolo, derrubou o altar, cortou os bosques e ergueu no lugar oratórios dedicados a São Martinho e a São João Batista. Ali nasceria o mosteiro de onde a Regra se espalharia pelo Ocidente.
Os Diálogos contam que o antigo inimigo não aceitou o despejo. Aparecia ao santo com aspecto horrendo, gritando contra ele; atormentou os monges com uma pedra que ninguém conseguia erguer, com um incêndio que só existia aos olhos deles e com o desabamento de uma parede que matou um jovem monge, devolvido vivo à comunidade pela oração de Bento. Em cada episódio, Bento respondeu com a oração e com o sinal da cruz.
A morte de pé e a frase da medalha
Bento morreu por volta de 547, a 21 de março segundo a tradição monástica. Sentindo o fim, pediu que o levassem ao oratório, recebeu o Corpo e o Sangue do Senhor e, sustentado pelos discípulos, morreu de pé, com as mãos erguidas em oração. Por isso a inscrição que circunda a frente da medalha pede: Eius in obitu nostro praesentia muniamur, "que na nossa morte sejamos fortalecidos pela sua presença".
O cálice, o corvo e a cruz erguida resumem o que São Gregório quis transmitir: Deus protegeu o seu servo, e o servo venceu pelo sinal da cruz de Cristo. Como essa memória virou uma medalha cheia de letras, séculos mais tarde, é o assunto da próxima etapa desta trilha, que passa por um manuscrito de 1415, um processo judicial de 1647 e dois papas.
São Gregório escreveu a vida de São Bento para alimentar a leitura diária dos fiéis. No santo do dia do Ora et Labora essa leitura continua: um santo por dia, com a vida contada sem pressa.
Perguntas frequentes
Quais milagres de São Bento aparecem na medalha?
A frente da medalha mostra o cálice partido e o corvo com o pão. O cálice lembra o vinho envenenado dos monges de Vicovaro, que se partiu quando São Bento o abençoou com o sinal da cruz. O corvo lembra o pão envenenado enviado pelo padre Florêncio, que o santo mandou a ave levar para onde ninguém pudesse encontrá-lo. Os dois episódios estão no livro II dos Diálogos de São Gregório Magno.
Quem escreveu a vida de São Bento?
O Papa São Gregório Magno, no livro II dos Diálogos, escrito por volta do ano 593, cerca de cinquenta anos após a morte do santo. Gregório declara ter recolhido o testemunho de quatro abades que conviveram com Bento.
O que significa a inscrição da frente da Medalha de São Bento?
A frente traz a inscrição latina "Eius in obitu nostro praesentia muniamur", que significa "que na nossa morte sejamos fortalecidos pela sua presença". Ela remete à morte de São Bento, que os Diálogos descrevem de pé no oratório, após receber a comunhão, com as mãos erguidas em oração.




