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A abelha como animal litúrgico: o que significa

Comunitária, silenciosa à noite, laboriosa e geradora de dois bens que não perecem, a abelha vive segundo uma ordem que a Igreja reconhece na própria liturgia.

Etapa 1 de 7 da trilha Simbolismo e Liturgia

João Guilherme FerreiraJoão Guilherme Ferreira5 min de leitura
Abelha em close sobre as células hexagonais de um favo, com outras duas abelhas ao redorFoto: Meggyn Pomerleau, Unsplash
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Neste artigo

Há criaturas cuja vida, antes de qualquer leitura simbólica, parece dispor-se segundo uma ordem que excede a necessidade biológica. A abelha é uma delas. Sua existência é comunitária por estrutura, silenciosa por hábito noturno, laboriosa por essência e geradora de dois bens que não perecem, o mel e a cera. Essa disposição se parece com aquilo que a Tradição da Igreja chama liturgia. Daí a hipótese que sustento nesta série: a abelha é animal litúrgico em sentido próprio. Chamá-la de figura ou de metáfora da vida cristã diz menos do que ela é.

A afirmação tem apoio na Tradição. O Precônio Pascal, o canto que abre a Vigília da Ressurreição, agradece em alta voz "o trabalho das abelhas" como matéria da luz pascal. Santo Ambrósio, segundo a hagiografia, teve a boca tocada por um enxame ainda na infância, e recebeu daí o dom da palavra. São Bernardo de Claraval foi cognominado Doctor Mellifluus, o doutor cuja palavra escorre como mel. A iconografia monástica brasileira, em peças como a Carta de Profissão de Frei Rosendo do Rosário (1677), abriga abelhas em capitulares iluminadas como signos de Maria, do Cristo e do próprio professando.

Um culto à vida e ao serviço#

A palavra liturgia vem do grego leitourgía, obra do povo, e designa o serviço cultual que a comunidade dos fiéis oferece a Deus. A liturgia da Igreja é sempre comunitária, porque é obra do Corpo inteiro (1 Cor 12,12-27). A colmeia também é comunidade, e comunidade rigorosamente estruturada. O zumbido contínuo, a atividade das obreiras e o recolhimento ao cair da tarde compõem um modo de existência que a leitura tradicional reconhece como louvor e trabalho. A abelha cumpre por instinto a ordem que lhe foi inscrita. O monge cumpre, por escolha e sob a Regra, uma ordem semelhante.

O percurso da série#

Os textos seguintes desenvolvem essa tese em seis movimentos, e cada um pode ser lido por si.

Da cera ao altar#

O ponto decisivo está na matéria. A cera produzida pelas abelhas constitui a matéria do Círio Pascal, a coluna de luz que a Igreja acende na noite da Ressurreição. O Precônio canta uma chama "que se alimenta de cera produzida pelo trabalho das abelhas". A tradição medieval, recolhida por Chevalier e Gheerbrant, foi mais longe e afirmou que não se pode celebrar missa sem cera. Poucas criaturas ocupam lugar tão central no culto cristão. O lavrador oferece o pão, o vinhateiro oferece o vinho, a abelha oferece a luz.

Essa convergência alcança a iconografia do Lagar Místico, motivo em que o Cristo é, ao mesmo tempo, vinhateiro e uva prensada, e de cuja prensa escorre o Sangue recolhido em cálices. O motivo se funda na parábola da videira (Jo 15,1-8) e em Isaías (Is 63,1-3), e a gravura de Jerônimo Wierix o ilustra sob esse título. O mel que não se deteriora, a oração que não perece e o Sangue que vence a morte ordenam-se segundo a mesma lógica: do alimento natural incorruptível ao Alimento eterno que é o próprio Cristo.

Louvor da natureza, louvor da consciência#

A leitura simbólica proposta aqui não projeta imagens arbitrárias sobre a criatura. Ela reconhece o que a natureza da abelha realmente oferece: a vida em comum, a disciplina das horas, o trabalho ininterrupto e os dois frutos incorruptíveis. A polivalência simbólica, a abelha como Maria, como Cristo, como Espírito, como alma, como monge, é riqueza convergente, inscrita na criatura mesma.

A abelha louva por instinto; o monge louva por consciência. A Igreja recolhe os dois louvores e os oferece ao mesmo Senhor.

Chega-se, assim, à fórmula que fecha o percurso: a abelha é monge que não pode não sê-lo; o monge é abelha que escolheu sê-lo. Entre os dois corre a linha do mesmo culto, oferecido ao mesmo Senhor, na mesma Igreja, fundada sobre a mesma rocha e iluminada, também, pela cera daqueles que zumbem.

Este texto integra a série Simbolismo e Liturgia, fruto de uma pesquisa produzida na Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro, onde sou aluno, sob a orientação de Dom Mauro Maia Fragoso, professor da instituição. Ele adapta, para o blog, meu artigo acadêmico "A abelha como animal litúrgico: imagem da vida monástica e prefiguração eucarística".

Referências#

  • AMBRÓSIO DE MILÃO, Santo. Hexameron, livro V.
  • BÍBLIA SAGRADA.
  • CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos.
  • ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano.
  • GUARDINI, Romano. O espírito da liturgia.
  • SÃO BENTO. A Regra de São Bento.
  • VIGÍLIA PASCAL. Precônio Pascal (Exsultet). In: Missal Romano.

Perguntas frequentes

Por que a abelha é chamada de animal litúrgico?

Porque sua obra entra na própria forma do culto: a cera que produz é a matéria do Círio Pascal, e o Precônio Pascal agradece expressamente "o trabalho das abelhas". Sua vida comunitária, silenciosa à noite e laboriosa espelha a Igreja e a vida monástica.

Qual é o simbolismo da abelha na tradição cristã?

A abelha é atributo de Santo Ambrósio e de São Bernardo, o Doctor Mellifluus. Figura Maria, que gera silenciosamente a Luz do mundo; o Cristo, que tem mel e ferrão; o Espírito Santo, pelo enxame de natureza ígnea; a alma, que voa entre o céu e a terra; e o monge do ora et labora.

O que a abelha tem a ver com a Missa?

A tradição medieval afirmou que não se pode celebrar missa sem cera, e a celebração eucarística requer, por preceito litúrgico, velas de cera de abelha. Na prática atual muitas velas são de matéria sintética, e a relação é de ordem simbólica e tradicional.

João Guilherme Ferreira

João Guilherme Ferreira

Sócio da Anjo Comunicação, formado em Filosofia e pós-graduando em Liturgia pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro. É postulante à oblação no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro e atua há seis anos como diretor editorial da Missão Tenda do Senhor. É também idealizador e criador do aplicativo Ora et Labora, além de idealizador e coapresentador do podcast de mesmo nome.

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