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A Carta de Profissão de Frei Rosendo do Rosário (1677)

Um monge carioca professou no Mosteiro de São Bento em 1677 e escreveu de próprio punho sua Carta de Profissão. Na capitular iluminada, flores, dois pavões, a pomba e duas abelhas. Leitura da imagem.

Etapa 6 de 7 da trilha Simbolismo e Liturgia

João Guilherme FerreiraJoão Guilherme Ferreira3 min de leitura
Página de pergaminho medieval com letra capitular iluminada em ouro, verde e vermelho e texto góticoFoto: Boudewijn Huysmans, Unsplash
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Neste artigo

A leitura proposta ao longo desta série pode ser observada de modo concreto na iconografia monástica brasileira. Tomo um exemplo: a Carta de Profissão de Frei Rosendo do Rosário, monge beneditino natural do Rio de Janeiro, que professou em 1677 e veio a falecer em 1726, octogésimo quarto sepultado na Abadia fluminense. Pelas características ortográficas, a peça foi escrita e assinada de próprio punho. A hagiografia interna do Mosteiro o registra como monge sincero, humilde e obediente, que administrou a fazenda de Cabo Frio e supriu temporariamente a freguesia daquela paróquia. Os dados vêm da tese de Victor Murilo Maia Fragoso sobre a grafia e a iconografia do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro entre 1602 e 1802.

A letra capitular#

Importa aqui a letra capitular iluminada que abre a Carta. Trata-se de letra ornada por uma economia simbólica densa, e seus elementos merecem descrição um a um.

A própria letra é constituída por motivos fitomorfos em estado de florescência, figura tradicional da fertilidade, que aqui se transpõe ao plano espiritual. O monge professante floresce no instante em que se compromete com a vida regular. Acompanham a letra dois pavões reais, signo das duas naturezas do Cristo, divina e humana, e, ao mesmo tempo, da ressurreição, em razão da renovação anual de sua plumagem. Sobre a composição paira a pomba, figura constante do Espírito Santo. E, por fim, surgem duas abelhas.

As duas abelhas, em três níveis#

A leitura das duas abelhas é polifônica. Em primeiro nível, representam Maria e o Cristo, ambos abelhas pela ação silenciosa, como mostrou o texto sobre a tradição cristã: ela, gerando sem ruído a Luz do mundo; ele, distribuindo o mel da misericórdia. Em segundo nível, representam os cristãos em geral, em razão da vida de oração que são chamados a levar. Em terceiro nível, e neste caso particular, representam Maria, Rainha dos monges, e o próprio professando. Ao assinar a Carta, ele declara assumir, na ordem da consciência e do voto, o modo de existência que a abelha realiza por natureza.

Uma peça de culto#

A capitular cumpre, desse modo, uma função litúrgica em sentido estrito. Ornamento decorativo seria dizer pouco. A Carta de Profissão é peça de culto, e o ato de escrevê-la e assiná-la é parte da própria liturgia da profissão. As abelhas inscritas em sua inicial são, portanto, icônicas.

As abelhas da capitular manifestam, sobre o papel de trapo, o que a Vigília Pascal canta em alta voz e a colmeia realiza, sem palavras, em seu zumbido cotidiano.

O caso de Frei Rosendo mostra que a leitura da abelha como animal litúrgico chegou, em forma erudita, à tradição beneditina brasileira do século XVII. Resta articular um último motivo, em que o mel da abelha e o vinho do lagar encontram sua unidade na Eucaristia. É o assunto do último texto da série.

Este texto integra a série Simbolismo e Liturgia, fruto de uma pesquisa produzida na Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro, onde sou aluno, sob a orientação de Dom Mauro Maia Fragoso, professor da instituição. Ele adapta, para o blog, meu artigo acadêmico "A abelha como animal litúrgico: imagem da vida monástica e prefiguração eucarística".

Referências#

  • FRAGOSO, Victor Murilo Maia. Grafia & iconografia: traços identitários na Escola de Serviço do Senhor Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro (1602-1802). Tese (Doutorado em Geografia). Instituto de Geografia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2015. 342 f.

Perguntas frequentes

Quem foi Frei Rosendo do Rosário?

Monge beneditino natural do Rio de Janeiro, que professou em 1677 e faleceu em 1726, o octogésimo quarto sepultado na Abadia fluminense. Administrou a fazenda de Cabo Frio e supriu temporariamente a freguesia daquela paróquia.

O que é uma Carta de Profissão?

É a peça em que o monge assume, por escrito e com sua assinatura, o compromisso da vida regular. Na tradição beneditina é peça de culto: escrevê-la e assiná-la faz parte da própria liturgia da profissão.

O que significam as duas abelhas da capitular?

Em três níveis: Maria e o Cristo, abelhas pela ação silenciosa; os cristãos em geral, pela vida de oração; e Maria, Rainha dos monges, com o próprio professando, que assume por voto o modo de existência que a abelha realiza por natureza.

João Guilherme Ferreira

João Guilherme Ferreira

Sócio da Anjo Comunicação, formado em Filosofia e pós-graduando em Liturgia pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro. É postulante à oblação no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro e atua há seis anos como diretor editorial da Missão Tenda do Senhor. É também idealizador e criador do aplicativo Ora et Labora, além de idealizador e coapresentador do podcast de mesmo nome.

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