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A Carta de Profissão de Frei Rosendo do Rosário (1677)

Um Servo da TendaUm Servo da Tenda4 min de leitura
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A Carta de Profissão de Frei Rosendo do Rosário (1677)Foto: Pixabay

A carta de profissão beneditina de Frei Rosendo do Rosário, professo no Rio de Janeiro em 1677, mostra como o simbolismo da abelha que percorremos nesta série deixa de ser teoria e se inscreve, concretamente, na iconografia monástica brasileira. Numa única letra capitular iluminada, fitomorfos em flor, pavões, a pomba e duas abelhas condensam toda uma teologia da vida consagrada. Vejamos peça por peça.

Quem foi Frei Rosendo do Rosário

Frei Rosendo do Rosário foi monge beneditino natural do Rio de Janeiro. Professou em 1677 e veio a falecer em 1726, sendo o octogésimo quarto sepultado na Abadia fluminense. Pelas características ortográficas, a peça foi escrita e assinada de próprio punho. A hagiografia interna do Mosteiro o registra como monge sincero, humilde e obediente, tendo administrado a fazenda de Cabo Frio e suprido temporariamente a freguesia daquela paróquia (Fragoso, 2015).

A letra capitular iluminada e sua economia simbólica

O que aqui mais interessa é a letra capitular iluminada que abre a Carta. Trata-se de uma letra ornada por uma economia simbólica densa, cujos elementos merecem ser descritos um a um.

  • Motivos fitomorfos em florescência: a própria letra é constituída por plantas em flor — figura tradicional da fertilidade, que aqui se transpõe ao plano espiritual. O monge professante floresce no instante em que se compromete com a vida regular.
  • Dois pavões reais: signo das duas naturezas do Cristo — divina e humana — e, simultaneamente, da ressurreição, em razão da renovação anual de sua plumagem.
  • A pomba: que paira sobre a composição, figura constante do Espírito Santo.
  • Duas abelhas: o coroamento de toda a cena.

A leitura polifônica das duas abelhas

A leitura das duas abelhas é polifônica — desdobra-se em vários níveis simultâneos de sentido.

Primeiro nível: Maria e o Cristo

As abelhas representam Maria e o Cristo, ambos, segundo a tradição, abelhas pela ação silenciosa: ela, gerando sem ruído a Luz do mundo; ele, distribuindo o mel da misericórdia.

Segundo nível: os cristãos

Num segundo nível, as abelhas representam os cristãos em geral, em razão da vida de oração que estes são chamados a levar.

Terceiro nível: a Rainha dos monges e o professando

Num terceiro nível, e neste caso particular, representam Maria — Rainha dos monges — e o próprio professando, que, ao assinar a Carta, declara assumir, na ordem da consciência e do voto, o modo de existência que a abelha realiza por natureza.

Uma capitular com função litúrgica

A capitular cumpre, deste modo, uma função litúrgica em sentido estrito. Não se trata de ornamento meramente decorativo: a Carta de Profissão é peça de culto, e o ato de escrevê-la e assiná-la é parte da própria liturgia da profissão.

As abelhas inscritas em sua letra inicial são, portanto, hierofania concreta: manifestam, sobre o pergaminho, aquela mesma realidade que a Vigília Pascal canta em alta voz e que a colmeia realiza, sem palavras, em seu zumbido cotidiano.

Este post integra a trilha Oficina Catequética e dá continuidade ao estudo de fundo sobre a abelha como animal litúrgico, onde se desenvolvem as fontes que aqui aparecem em ato — do Exsultet ao Doctor Mellifluus.

Perguntas frequentes

Quem foi Frei Rosendo do Rosário?

Monge beneditino natural do Rio de Janeiro, que professou em 1677 e faleceu em 1726, sepultado na Abadia fluminense. Administrou a fazenda de Cabo Frio e supriu temporariamente a freguesia daquela paróquia.

O que é uma carta de profissão beneditina?

É a peça em que o monge declara assumir os votos da vida regular. Sendo peça de culto, o próprio ato de escrevê-la e assiná-la faz parte da liturgia da profissão.

O que significa a iconografia monástica da abelha nessa carta?

As duas abelhas da capitular têm leitura polifônica: figuram Maria e o Cristo pela ação silenciosa, os cristãos chamados à oração e, em particular, Maria como Rainha dos monges e o próprio professando, que adota o modo de existência que a abelha vive por natureza.

Este texto integra a série "Simbolismo e Liturgia" e é baseado no artigo acadêmico de João Guilherme Ferreira Santos, "A abelha como animal litúrgico", desenvolvido no âmbito da Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro.

Da profissão beneditina de Frei Rosendo às abelhas da capitular, percebe-se o mesmo solo monástico que floresceu no deserto. Conheça os Apoftegmas dos Padres do Deserto no Ora et Labora e mergulhe na sabedoria que moldou essa tradição.

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