A abelha na tradição cristã: símbolo de Maria e Cristo
Atributo de Santo Ambrósio e de São Bernardo, figura do Espírito Santo, de Maria, do Cristo e da alma: a abelha condensa múltiplos aspectos do mistério cristão, e cada leitura nasce de uma propriedade real da criatura.
Etapa 3 de 7 da trilha Simbolismo e Liturgia
Foto: Cristina Marin, UnsplashNeste artigo
Antes de ler a colmeia como espelho da vida monástica, convém percorrer a polivalência simbólica que a abelha assumiu na tradição cristã. A variedade de sentidos poderia parecer dispersão. É antes riqueza de uma criatura que, por sua mesma natureza, condensa múltiplos aspectos do mistério. Este é o terceiro texto da série aberta por A abelha como animal litúrgico.
Atributo de dois doutores#
A abelha é, em primeiro lugar, atributo iconográfico de Santo Ambrósio. Conta a tradição hagiográfica, recolhida por Alban Butler, que um enxame pousou nos lábios do menino e deixou neles uma gota de mel. O sinal foi lido depois como dom da eloquência sagrada que marcaria sua palavra no pastoreio das almas. Pela mesma razão a abelha é atributo de São Bernardo de Claraval, cognominado Doctor Mellifluus: doutor cuja palavra, semelhante ao mel, alimenta sem corromper. A esses dois se acrescenta uma leitura mais ampla, a do enxame como figura do Espírito Santo, fundada na natureza ígnea que os antigos atribuíam ao inseto: fogo que pousa, fecunda e parte (At 2,1-4).
Santo Ambrósio e o Hexameron#
A leitura ambrosiana merece detalhe. No Hexameron (livro V, 21), Santo Ambrósio detém-se sobre a abelha como modelo de virtude e ressalta três elementos que voltarão decisivos na leitura monástica posterior: a vida em comum sob ordem rigorosa, a fidelidade ao trabalho e o caráter incorruptível do fruto produzido. O Bispo de Milão lê na abelha um princípio de organização da virtude, como se a criatura, em sua ordem natural, antecipasse o que a ascese cristã viria a propor à liberdade humana.
A iconografia prolonga essa intuição. Com frequência o santo é representado ao lado de uma colmeia, e a imagem diz algo sobre o ofício da palavra episcopal. A homilia segue o regime do enxame: produz-se em comunidade, distribui-se em silêncio e conserva-se sem corromper.
Maria e o Cristo#
Há ainda o registro mariológico e cristológico. Segundo um tópos tradicional, as abelhas não dão à luz, mas tornam-se mães pelo trabalho de seus lábios. A analogia é delicada e serve à geração eterna do Verbo, que procede da boca do Pai (Sl 33,6). Maria é abelha em sentido próprio: gera silenciosamente, pelo trabalho contínuo de sua escuta, a matéria pela qual a Luz se manifesta ao mundo.
O Cristo, por sua vez, também é abelha, porque produz mel, a misericórdia que adoça, e porque possui ferrão, o juízo que perfura. A iconografia traduz essa dupla qualidade numa só criatura: o Senhor doce e juiz, segundo a expressão tradicional consignada por Chevalier e Gheerbrant.
A alma, a ressurreição e a graça particular#
Sob outro aspecto, a abelha que voa entre o céu e a terra é figura da alma humana, presa entre dois mundos e oscilante. Representada em túmulo, é signo da ressurreição. Nada disso é aplicação arbitrária de imagens. As leituras decorrem de propriedades reais da abelha, como observa Gerd Heinz-Mohr: sua natureza ígnea, sua ação silenciosa, sua delicadeza ao extrair o pólen sem dano à flor.
É a criatura mesma que, em sua ordem própria, oferece os traços que a leitura simbólica reconhece.
Resta um último ponto, decisivo para o que vem depois. Um texto medieval, recolhido por Chevalier e Gheerbrant, afirma que a nobreza das abelhas provém do paraíso, de onde tiveram de se retirar por causa do pecado humano, mas que sobre elas Deus derramou em seguida uma graça particular. Por isso, conclui o texto, não se pode celebrar missa sem cera. A tradição associou desde cedo a abelha à própria celebração do Mistério. O texto sobre o Precônio Pascal retoma essa sentença. Antes dele, o próximo texto lê a colmeia como espelho da vida monástica.
Este texto integra a série Simbolismo e Liturgia, fruto de uma pesquisa produzida na Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro, onde sou aluno, sob a orientação de Dom Mauro Maia Fragoso, professor da instituição. Ele adapta, para o blog, meu artigo acadêmico "A abelha como animal litúrgico: imagem da vida monástica e prefiguração eucarística".
Referências#
- AMBRÓSIO DE MILÃO, Santo. Hexameron, livro V.
- BÍBLIA SAGRADA.
- BUTLER, Alban. Vidas dos santos.
- CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos.
- HEINZ-MOHR, Gerd. Dicionário dos símbolos.
Perguntas frequentes
Por que a abelha é símbolo de Santo Ambrósio?
Segundo a tradição hagiográfica, um enxame pousou nos lábios de Ambrósio ainda criança e deixou neles uma gota de mel, sinal lido como dom da eloquência sagrada. No Hexameron (livro V, 21) o próprio santo toma a abelha como modelo de virtude.
Por que São Bernardo é chamado Doctor Mellifluus?
Porque sua palavra, semelhante ao mel, alimenta sem corromper. Por essa razão a abelha é também seu atributo iconográfico.
Em que sentido a abelha simboliza Maria e o Cristo?
Segundo um tópos tradicional, as abelhas tornam-se mães pelo trabalho dos lábios, e Maria gera silenciosamente a Luz do mundo. O Cristo é abelha porque produz mel, a misericórdia que adoça, e possui ferrão, o juízo que perfura: o Senhor doce e juiz.

João Guilherme Ferreira
Sócio da Anjo Comunicação, formado em Filosofia e pós-graduando em Liturgia pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro. É postulante à oblação no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro e atua há seis anos como diretor editorial da Missão Tenda do Senhor. É também idealizador e criador do aplicativo Ora et Labora, além de idealizador e coapresentador do podcast de mesmo nome.
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