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A abelha na tradição cristã: símbolo de Maria e Cristo

Um Servo da TendaUm Servo da Tenda5 min de leitura
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A abelha na tradição cristã: símbolo de Maria e CristoFoto: Pixabay

Poucas criaturas reúnem tantos sentidos espirituais quanto a abelha. Na tradição cristã, a abelha é um símbolo de Maria e de Cristo, atributo de Santo Ambrósio e do Espírito Santo, e figura da alma que se eleva entre o céu e a terra. Esta riqueza de leituras não é confusão, mas a fecundidade de uma criatura que, por sua própria natureza, condensa múltiplos aspectos do mistério. Este post integra nossa trilha A abelha como animal litúrgico, dentro da série Simbolismo e Liturgia.

A polivalência simbólica da abelha

Antes de contemplar a colmeia como espelho da vida monástica, convém percorrer a polivalência simbólica que a abelha assumiu na tradição cristã. Essa polivalência não é dispersão de sentidos, mas a riqueza de uma criatura que, por sua mesma natureza, reúne diferentes faces de um único mistério.

Atributo de Santo Ambrósio e de São Bernardo

A abelha é, em primeiro lugar, atributo iconográfico de Santo Ambrósio. Diz a tradição hagiográfica que, ainda criança, um enxame de abelhas pousou-lhe nos lábios, deixando neles uma gota de mel. O episódio foi lido, mais tarde, como sinal do dom da eloquência sagrada que viria a marcar sua palavra no pastoreio episcopal das almas.

Pela mesma razão, a abelha é também atributo de São Bernardo de Claraval, cognominado Doctor Mellifluus: doutor cuja palavra, semelhante ao mel, alimenta sem corromper. A estes dois acrescenta-se a leitura mais ampla do enxame como figura do Espírito Santo, fundada na consideração antiga da natureza ígnea atribuída ao inseto — fogo que pousa, fecunda e parte (cf. At 2, 1-4).

A leitura ambrosiana no Hexameron

A leitura de Ambrósio merece detalhamento. No Hexameron (Livro V, 21), o santo se detém sobre a abelha como modelo de virtude, ressaltando três traços que se mostrarão decisivos para a leitura monástica posterior:

  • a vida em comum sob ordem rigorosa;
  • a fidelidade ao trabalho;
  • o caráter incorruptível do fruto produzido.

O Bispo de Milão, longe de tratar a abelha como mero exemplo edificante, lê nela um princípio de organização da virtude — como se a criatura, em sua ordem natural, antecipasse aquilo que a ascese cristã viria a propor à liberdade humana. A iconografia o representa, com frequência, ao lado de uma colmeia, indicando que o ofício da palavra episcopal — a homilia — segue o regime do enxame: produz-se em comunidade, distribui-se em silêncio e conserva-se sem corromper.

Maria e Cristo: o registro mariológico e cristológico

Há ainda o registro mariológico e cristológico. As abelhas, segundo um tópos tradicional, não dão à luz, mas tornam-se mães pelo trabalho de seus lábios — analogia delicada para a geração eterna do Verbo, que procede da boca do Pai (cf. Sl 33, 6).

Maria é abelha em sentido próprio: gera silenciosamente, pelo trabalho contínuo de sua escuta, a matéria pela qual a Luz se manifesta ao mundo. O Cristo, por sua vez, é também abelha — porque produz mel, a misericórdia que adoça, e porque possui ferrão, o juízo que perfura.

Dupla qualidade que a iconografia traduz em uma só criatura: o Senhor doce e juiz, segundo a expressão tradicional consignada por Chevalier e Gheerbrant.

A alma, a ressurreição e a graça do paraíso

Sob outro aspecto, a abelha que voa entre o céu e a terra é figura da alma humana, presa entre dois mundos e oscilante; representada em um túmulo, torna-se signo da ressurreição. Tudo isso, longe de ser aplicação arbitrária de imagens à criatura, decorre de propriedades reais da abelha — sua natureza ígnea, sua ação silenciosa, sua delicadeza ao extrair o pólen sem dano à flor (Heinz-Mohr). É a criatura mesma que, em sua ordem própria, oferece os traços que a leitura simbólica reconhece.

Resta um último ponto, decisivo para o que se segue. Um texto medieval, recolhido por Chevalier e Gheerbrant, afirma que a nobreza das abelhas provém do paraíso, de onde tiveram que se retirar por causa do pecado humano, mas que sobre elas Deus derramou em seguida uma graça particular — e por isso, conclui o texto, não se pode celebrar missa sem cera. A afirmação será retomada ao tratarmos do Precônio Pascal; por ora, basta registrar que a tradição associou desde cedo a abelha à própria celebração do Mistério.

Perguntas frequentes

Por que a abelha é símbolo cristão?

A abelha é símbolo cristão por suas propriedades reais — natureza ígnea, ação silenciosa e produção de um fruto incorruptível — que a tradição lê como imagem do Espírito Santo, da alma, da ressurreição e da própria celebração do Mistério, já que não se celebra missa sem cera.

Qual a relação entre Santo Ambrósio e a abelha?

Segundo a tradição hagiográfica, ainda criança um enxame pousou nos lábios de Santo Ambrósio, deixando uma gota de mel — lido como sinal do dom da eloquência sagrada. Por isso ele é representado ao lado de uma colmeia, e sua homilia segue o regime do enxame: produz-se em comunidade, distribui-se em silêncio e conserva-se sem corromper.

Em que sentido a abelha é símbolo de Maria?

Pelo tópos de que as abelhas se tornam mães pelo trabalho de seus lábios, Maria é dita abelha porque gera silenciosamente, pela escuta contínua, a matéria pela qual a Luz se manifesta ao mundo — analogia da geração eterna do Verbo que procede da boca do Pai (cf. Sl 33, 6).

Este texto integra a série "Simbolismo e Liturgia", da Oficina Catequética, e é baseado no artigo acadêmico de João Guilherme Ferreira Santos, "A abelha como animal litúrgico", desenvolvido no âmbito da Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro.

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