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Liturgia, espaço sagrado e hierofania: o que são

Antes de ler a abelha como animal litúrgico é preciso fixar três conceitos: liturgia, obra do povo oferecida a Deus; espaço sagrado, a superfície que a ação organiza; e hierofania, a manifestação do sagrado no mundo…

Etapa 2 de 7 da trilha Simbolismo e Liturgia

João Guilherme FerreiraJoão Guilherme Ferreira3 min de leitura
Nave gótica iluminada, com arcos de pedra e vitrais ao fundoFoto: Acervo da Missão Tenda do Senhor, em peregrinação
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Neste artigo

O primeiro texto desta série propôs uma tese: a abelha é animal litúrgico em sentido próprio. Para que a afirmação tenha rigor, é preciso fixar antes os conceitos com que ela trabalha. São três: liturgia, espaço sagrado e hierofania. Nenhum deles é novidade. O modo como se articulam, porém, decide toda a leitura que se segue.

Liturgia, obra do povo#

A palavra liturgia vem do grego leitourgía, composto de laós, povo, e érgon, obra. Designava originalmente uma obra pública prestada em benefício da comunidade. Transposta para o âmbito da Igreja, passou a nomear o serviço cultual que a comunidade dos fiéis oferece a Deus. Nela se unem, por isso, dois momentos inseparáveis: o serviço e o culto.

Uma consequência decorre daí. Em sentido estrito não há liturgia privada. A liturgia da Igreja é necessariamente comunitária, porque é a obra do Corpo inteiro, do qual cada fiel é membro (1 Cor 12,12-27), como lembra Romano Guardini em O espírito da liturgia.

Espaço sagrado#

Toda obra se realiza em algum espaço. Entendo aqui por espaço determinada superfície, material ou imaginária, passível de transformações realizadas pela ação humana ou por ordem natural, e que reflete a sociedade a que está vinculada. O templo, o claustro e a colmeia são espaços nesse sentido. Cada um deles organiza a ação que nele transcorre e, ao mesmo tempo, é reorganizado por ela.

Hierofania, a manifestação do sagrado#

Quando, num dado espaço, o sagrado se manifesta, dá-se aquilo que Mircea Eliade chamou hierofania: a irrupção do totalmente outro no interior do mundo profano. O termo é preciso. Hierofania é manifestação do sagrado, e o que dela escapa permanece, à letra, não revelado.

Essa distinção entre o que se manifesta e o que ainda não se revelou estrutura toda a leitura simbólica que a tradição cristã faz de determinadas realidades. As criaturas, sem cessarem de ser o que são em sua ordem própria, podem tornar-se sinal de algo que as transcende. A abelha continua abelha. O favo continua favo. E, ainda assim, a Igreja lê neles uma ordem que aponta para além de si mesma.

As criaturas, sem deixarem de ser o que são, podem tornar-se sinal de algo que as transcende.

O lugar da arte#

Resta fixar o estatuto do trabalho artístico nesse horizonte. Por arte entendo a produção consciente de formas, cores ou objetos com a intenção de concretizar uma ideia de beleza e harmonia, ou de exprimir a subjetividade humana. A iconografia cristã reproduzida em capitulares iluminadas, vitrais e retábulos pertence a esse âmbito. Nela a abelha aparece com frequência e densidade, como se verá na Carta de Profissão de Frei Rosendo do Rosário, que a série analisa mais adiante.

Com esses três conceitos em mãos, a leitura da abelha deixa de ser curiosidade natural. A colmeia é espaço; nela se realiza uma obra comunitária; e a tradição da Igreja reconheceu nessa obra um sinal do sagrado. O próximo texto percorre a polivalência simbólica que a abelha assumiu na tradição cristã.

Este texto integra a série Simbolismo e Liturgia, fruto de uma pesquisa produzida na Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro, onde sou aluno, sob a orientação de Dom Mauro Maia Fragoso, professor da instituição. Ele adapta, para o blog, meu artigo acadêmico "A abelha como animal litúrgico: imagem da vida monástica e prefiguração eucarística".

Referências#

  • BÍBLIA SAGRADA.
  • ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano.
  • GUARDINI, Romano. O espírito da liturgia.

Perguntas frequentes

O que é hierofania?

Hierofania é o termo com que Mircea Eliade nomeia a manifestação do sagrado: a irrupção do totalmente outro no interior do mundo profano. O que não se manifesta permanece, à letra, não revelado.

O que significa a palavra liturgia?

Vem do grego leitourgía, de laós (povo) e érgon (obra): uma obra pública prestada em benefício da comunidade. Na Igreja, designa o serviço cultual que os fiéis oferecem a Deus, unindo serviço e culto.

Existe liturgia privada?

Em sentido estrito, não. A liturgia da Igreja é obra do Corpo inteiro, do qual cada fiel é membro (1 Cor 12,12-27), e por isso é necessariamente comunitária.

João Guilherme Ferreira

João Guilherme Ferreira

Sócio da Anjo Comunicação, formado em Filosofia e pós-graduando em Liturgia pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro. É postulante à oblação no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro e atua há seis anos como diretor editorial da Missão Tenda do Senhor. É também idealizador e criador do aplicativo Ora et Labora, além de idealizador e coapresentador do podcast de mesmo nome.

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