Liturgia, Silêncio e Atuação (II): Do Belo ao Belo
Segundo texto da série "Liturgia — Silêncio e Atuação": a colunista Stella Maria Ferreira contempla a beleza que emana da liturgia como ponte entre o visível e o invisível, saudade do Céu que arrebata a alma para o Deus…
Etapa 2 de 3 da trilha Liturgia, Silêncio e Atuação
Foto: Mr. Great Heart, UnsplashNeste artigo
Por uma beneditina
Este é o segundo texto da série "Liturgia — Silêncio e Atuação". Depois de refletir sobre a paz que nasce do silêncio diante da Cruz, Stella Maria segue o itinerário do silêncio litúrgico pelo caminho da beleza.
"A beleza é a chave do mistério e o chamado ao transcendente. É o convite a saborear a vida e a sonhar o futuro."
— São João Paulo II, Carta aos Artistas
Saudade do Céu
Saudade do Céu. Seria esta uma definição para a beleza que emana da Liturgia. Ao contemplar o reflexo da harmonia divina na Terra, através do rito, o fiel experimenta uma antecipação da liturgia celeste. No silêncio sagrado — que mais que mera ausência de som é presença densa — o Espírito Santo encontra espaço para promover recolhimento, despertar a alma da distração cotidiana. Alma esposa, ainda militante, que espera vestir-se de linho puro resplandecente (cf. Ap 19,8), vislumbra o que a aguarda na Jerusalém do Céu.
Ponte entre o visível e o invisível
A beleza faz-se ponte entre o visível e o invisível — sendo que, como nos lembra o Papa Bento XVI em sua Introdução ao Cristianismo, "o invisível é mais real do que o visível" (2015, p. 55). No envolvimento dos sentidos humanos, a anagogia da fé revela como símbolos terrenos apontam para o eterno. A luminosidade que perpassa os vitrais e as velas faz lembrar que um dia ninguém mais precisará "nem da luz do Sol, porque o Senhor Deus brilhará sobre eles" (cf. Ap 22,5); nos cantos litúrgicos, ouvem-se os que "dia e noite, sem parar", proclamam "Santo, Santo, Santo" (cf. Ap 4,8); nas cores e vestes, a alma entra no ritmo do mistério; os objetos litúrgicos e o altar centralizado orientam para uma comunhão com o sublime.
Arrebatados para o Deus da beleza
Cláudio Pastro, em seu O Deus da Beleza, afirma que a própria beleza incriada "arrebata-nos para sermos um com Aquele que é o Deus da beleza; isto é, para sermos plenamente o que fomos sonhados" (2012, p. 22), a partir de progressiva transfiguração.
Por fim, o começo
Por fim, o começo: o Crucificado. Boniteza banhada de sangue; feridas abertas de uma graciosidade sem igual; lágrimas de formosura encantadora. E o convite: Vem!

Stella Maria Ferreira
Graduada em Letras, com mestrado e doutorado em Ciência da Literatura pela UFRJ; graduanda em Teologia pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro.
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