Martírio de amor
A colunista Stella Maria Ferreira parte do relato sobre o monge trapista Bento Chao para falar do martírio silencioso de quem, dia após dia, inclina o ouvido do coração e obedece.
Foto: Mateus Campos Felipe, UnsplashNeste texto, a colunista Stella Maria Ferreira recolhe o testemunho de um monge trapista e a lição de escuta que a Regra de São Bento guarda para quem vive em meio ao turbilhão.
Padre Bento Chao nasceu na China, em 1918, e ingressou na Abadia Nossa Senhora da Alegria em 1941. Viveu períodos importantes e dolorosos em sua comunidade monástica, como os horrores da Guerra...
"Ele morreu". Foi a última frase que li do relato sobre o monge trapista Bento Chao. Não pude avançar porque "Ele morreu" e eu chorei. Não o conhecia (infelizmente!)... e chorei.
Sementes de sangue e lágrimas
Refletindo a glória do Crucificado, homens e mulheres de todos os tempos, em meio a trabalhos ordinários souberam viver a máxima de São João Batista: "é necessário que ele cresça e que eu diminua" (Jo 3,30). Plantando sementes de sangue e lágrimas, brindam-nos com um legado cujos frutos colhemos e colheremos, sem podermos agradecer.
Inclinar o ouvido do coração
São Bento inicia o texto da Regra com a exortação à escuta (auscultare), a inclinar o ouvido do coração e obedecer. No silêncio, a voz de Deus se distingue, leve, suave como brisa outonal. Pessoas como este monge pararam, em meio ao turbilhão de tarefas, exigências... e renunciaram. Testemunhas fiéis, silenciosas, anônimas escolhem a melhor parte que não lhes foi tirada, dia após dia.
Na oblação da vontade, sulcam a pele, fazendo exalar um perfume de mirra ao Servo Sofredor. Assim, minha vida (a de todos nós) é sustentada e lindamente convidada ao mesmo. O desafio pede a coragem de ir com medo.

Stella Maria Ferreira
Graduada em Letras, com mestrado e doutorado em Ciência da Literatura pela UFRJ; graduanda em Teologia pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro.
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