Exame de consciência por temperamento: onde cada um se engana
O exame de consciência genérico passa por cima do pecado de cada um. O temperamento indica onde olhar primeiro, e as perguntas mudam para o sanguíneo, o colérico, o melancólico e o fleumático.
Etapa 4 de 4 da trilha Colérico-Fleumático
Foto: PixabayNeste artigo
Quase todo roteiro de exame de consciência é uma lista dos mandamentos com perguntas gerais embaixo de cada um. A lista é boa e insubstituível como moldura. O problema aparece na prática. Ela passa por cima do pecado concreto de quem está rezando, porque não sabe por onde aquele pecado entra. O temperamento sabe.
Por que o exame genérico escorrega
Cada temperamento tem uma porta larga e várias estreitas. O colérico dificilmente pecará por preguiça, e o fleumático dificilmente por ira. Se os dois fazem o mesmo exame, na mesma ordem, cada um gasta a maior parte do tempo em portas que no seu caso estão fechadas, e chega cansado na única que estava aberta.
A correção é simples e não substitui nada. Mantenha a moldura de sempre e acrescente, no fim, duas ou três perguntas que são suas. É onde o exame passa a doer, e portanto onde ele começa a servir.
As perguntas de cada temperamento
Sanguíneo
O pecado do sanguíneo entra pelo esquecimento e pela leveza. Pergunte:
- O que eu prometi esta semana e não cumpri?
- De quem eu falei rindo, e a quem essa piada custou algo?
- Onde eu quis ser visto, hoje, mais do que quis servir?
Colérico
No colérico, o pecado entra pela dureza e pela autossuficiência. Pergunte:
- Com quem eu fui duro hoje, e a quem devo pedir desculpas?
- Que conselho eu recebi e descartei antes de pensar?
- O que eu fiz para o Reino, e o que eu fiz para o meu nome?
Melancólico
No melancólico, o pecado entra pelo fechamento e pela tristeza cultivada. Pergunte:
- De que eu me acusei hoje sem que houvesse culpa?
- A quem eu recusei presença por estar ferido?
- O que eu deixei de começar para não fazer imperfeito?
Fleumático
No fleumático, o pecado entra pela omissão, e a omissão é silenciosa. Pergunte:
- O que eu poderia ter feito hoje e ninguém me pediu?
- Que afeto eu senti e não disse?
- Onde a minha paz de hoje foi caridade, e onde foi conforto?
O erro típico de cada um ao se examinar
Há um segundo tropeço, mais sutil, que acontece dentro do próprio exame.
O sanguíneo esquece. Chega à noite e o dia já sumiu, então conclui que não houve nada. Para ele o remédio é o papel. Anote durante o dia o que ficou atravessado e examine-se sobre o registro.
Já o colérico justifica. Reconhece o fato e, na mesma frase, explica por que estava certo. Separe os dois momentos. Primeiro nomear o que fez, sem uma única oração explicativa. Só depois, se for o caso, avaliar as circunstâncias.
No melancólico o problema é outro. Ele rumina, e o risco está em não parar, muito antes de estar em examinar pouco. A confissão regular é o corte que a ruminação não consegue dar sozinha. O exame termina quando se levanta do genuflexório, e não quando a alma se sente limpa.
O fleumático, por fim, não encontra nada. Ausência de conflito lhe parece ausência de pecado. Examine o que não aconteceu. Os pecados de omissão não constam em nenhuma cena, e é neles que o fleumático mora.
Como fazer, na prática
Hora fixa, poucos minutos, todos os dias. Comece pedindo luz, percorra o dia na ordem em que aconteceu, nomeie o que aparecer sem discutir, escolha um único propósito concreto para amanhã e termine com um ato de contrição. Uma vez por semana, releia os propósitos. É ali que se vê se houve conversão ou apenas boa intenção repetida.
Para entender por que a graça age sobre essa matéria natural em vez de apagá-la, leia graça e natureza. Se você ainda não sabe qual é o seu temperamento, o teste resolve em poucos minutos.
Perguntas frequentes
Como fazer o exame de consciência pelo temperamento?
Mantenha a moldura de sempre (os mandamentos, os deveres de estado, as obras de misericórdia) e acrescente duas ou três perguntas próprias do seu temperamento, que é por onde o seu pecado costuma entrar. O sanguíneo pergunta o que prometeu e não cumpriu; o colérico, em quem foi duro; o melancólico, de que se acusa sem culpa; o fleumático, o que deixou de fazer.
Qual a diferença entre culpa e contrição?
A contrição dói, reconhece a ofensa e se levanta para reparar. A culpa estéril gira em torno de si mesma e não conduz a nada. A diferença prática está no efeito. A contrição termina em confissão e em propósito concreto; a culpa termina em mais culpa. O melancólico precisa vigiar essa distinção mais que os outros.
Quanto tempo deve durar o exame de consciência?
Poucos minutos, todos os dias, no mesmo horário. Um exame diário breve e honesto forma a consciência melhor do que um exame longo e esporádico. A regra vale para os quatro temperamentos, com um aviso ao melancólico: para ele, mais tempo raramente significa mais verdade.

João Guilherme Ferreira
Sócio da Anjo Comunicação, formado em Filosofia e pós-graduando em Liturgia pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro. É postulante à oblação no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro e atua há seis anos como diretor editorial da Missão Tenda do Senhor. É também idealizador e criador do aplicativo Ora et Labora, além de idealizador e coapresentador do podcast de mesmo nome.
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