Temperamento no casamento e na convivência: por que o outro reage assim
O mesmo silêncio é descanso para um e abandono para outro. Como os quatro temperamentos leem o mesmo gesto, quais pares se atritam e o que cada um deve ao outro.
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Numa casa, quase nenhuma briga começa no assunto em que ela aparece. Começa antes, quando um lê o gesto do outro pela própria gramática. O mesmo silêncio, no fim do dia, é descanso merecido para quem o faz e castigo para quem o recebe. Conhecer os quatro temperamentos devolve a tradução que faltava. O resto do trabalho continua sendo caridade.
O mesmo gesto, quatro leituras
Considere uma cena banal. Alguém chega em casa e não conta como foi o dia.
O fleumático que se cala está descansando, e para ele o silêncio partilhado é a forma mais alta de estar junto. O sanguíneo que recebe esse silêncio ouve rejeição, porque para ele a palavra é o vínculo. O colérico interpreta como problema a resolver e começa a interrogar. O melancólico guarda a cena, volta a ela à noite e conclui que algo se rompeu.
Ninguém agiu por malícia, e os quatro saíram feridos. É o atrito mais comum da vida em comum, e o mais fácil de desarmar. Basta perguntar ao outro o que o gesto significou, em vez de atribuir a intenção que nós teríamos tido.
Os pares que atritam e os que se acomodam
Pares semelhantes se entendem depressa e reforçam o defeito que têm em comum. Dois coléricos decidem rápido e disputam o comando; dois fleumáticos vivem em paz e deixam o essencial por decidir; dois sanguíneos animam a casa e ninguém paga as contas; dois melancólicos se compreendem fundo e afundam juntos.
Pares opostos se completam e se irritam mais. O colérico casado com fleumático ganha ponderação e acha que o outro não se move. O sanguíneo com melancólico ganha profundidade e acha que o outro estraga a alegria. Nos dois casos, a virtude que falta é exatamente a que o outro tem de sobra, e é por isso que a convivência é escola.
Nenhuma combinação é melhor. Quem decide o casamento é a caridade exercida todos os dias por gente que continua diferente, e o cruzamento dos perfis não tem voto nisso.
O que cada um deve ao outro
O sanguíneo deve constância
Ele já dá alegria e perdão fácil. Falta cumprir o que prometeu, lembrar do que foi combinado e não transformar em piada o que o outro trouxe a sério.
O colérico deve tempo e desculpas
Ele já dá direção e resolve o que ninguém resolve. Falta esperar quem é mais lento sem demonstrar impaciência, deixar a frase do outro terminar e pedir desculpas antes de sentir vontade.
O melancólico deve palavra
Ele já dá fidelidade e profundidade. Falta dizer o que está pesando em vez de ruminar, e não punir com silêncio quem não sabe que ofendeu.
O fleumático deve iniciativa e afeto dito
Ele já dá paz e presença firme. Falta antecipar-se ao pedido e pôr em palavras o que sente, porque os seus sabem que ele está, e precisam ouvir que ele se importa.
O limite desta chave de leitura
Duas advertências, e a segunda é a mais importante.
A primeira. O temperamento explica a tendência e não absolve o ato. "Eu sou assim" descreve de onde se parte. A vida cristã é o trabalho de não terminar ali, e nenhum perfil autoriza a dureza nem a omissão que machucam quem vive com você.
A segunda, mais séria. Esta chave foi dada para o exame de si, e não para o diagnóstico do outro. Classificar o cônjuge é fácil e quase sempre serve para vencer a discussão. Use-a ao contrário. Pergunte qual virtude o outro tem que a você falta, e comece por ela. Sobre isso vale ler como virtudes e temperamentos se cruzam, e, para os filhos, o temperamento na educação.
Perguntas frequentes
Existe combinação de temperamentos ideal para o casamento?
Não existe. Combinações diferentes têm atritos diferentes, e todas exigem as mesmas virtudes: paciência, mansidão e a disposição de pedir desculpas. Pares parecidos se entendem rápido e reforçam o defeito comum; pares opostos se completam e se irritam mais. O que decide o casamento é a caridade exercida, não o cruzamento dos perfis.
Como lidar com um marido ou esposa de temperamento oposto?
Comece traduzindo o gesto antes de reagir a ele. Pergunte ao outro o que aquele silêncio, aquela pressa ou aquela tristeza significou para ele, em vez de atribuir a intenção que você teria. Depois, ofereça o que falta ao outro: quem é rápido concede tempo, quem é lento concede resposta, quem fala concede escuta, quem cala concede palavra.
O temperamento serve de desculpa para o mau humor?
Nunca. O temperamento explica a tendência e não absolve o ato. "Eu sou assim" descreve o ponto de partida; a vida cristã é o trabalho de não terminar ali. Usar o próprio perfil para justificar dureza, omissão ou tristeza imposta aos outros é inverter o uso desta chave de leitura.

João Guilherme Ferreira
Sócio da Anjo Comunicação, formado em Filosofia e pós-graduando em Liturgia pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro. É postulante à oblação no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro e atua há seis anos como diretor editorial da Missão Tenda do Senhor. É também idealizador e criador do aplicativo Ora et Labora, além de idealizador e coapresentador do podcast de mesmo nome.
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