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A formação do homem: continuada, desejada, vivida e prática

O que a doutrina aristotélica do hábito ensina sobre como um homem se forma, resumido em quatro palavras. Último texto da série sobre a coragem na Ética a Nicômaco.

Etapa 7 de 7 da trilha Tornar-se corajoso

João Guilherme FerreiraJoão Guilherme Ferreira4 min de leitura
Caminhante com mochila numa trilha que atravessa um campo dourado rumo às montanhas, ao entardecerFoto: Foto: Alex Moliski, Unsplash
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Este é o último texto da série sobre a coragem em Aristóteles. Os seis anteriores seguiram o percurso do meu trabalho de conclusão de curso em Filosofia: a virtude como hábito, a disposição e o meio-termo, o medo bem ordenado, os dois vícios e o fim nobre, as cinco coragens aparentes, o círculo desfeito. Falta juntar as peças e dizer o que elas ensinam sobre a formação do homem.

O que a investigação confirmou#

A pergunta inicial era simples: se nos tornamos corajosos praticando atos corajosos, como praticá-los antes de já sermos corajosos? O percurso confirmou que, para Aristóteles, a coragem não é dádiva natural, mas disposição de caráter que se forja no exercício, e que a circularidade anunciada não resiste a um exame mais atento.

A resposta ficou localizada no capítulo 4 do Livro II. Nas artes, a excelência está no produto; na virtude, exige-se que o agente aja com conhecimento, escolha o ato por si mesmo e o pratique a partir de um caráter firme (ARISTÓTELES, 2001). A diferença entre fazer o que o corajoso faz e fazê-lo como ele o faz é o que desfaz a aparência de círculo.

Quatro palavras#

Ao longo da série, quatro palavras foram aparecendo. Elas resumem o que a doutrina aristotélica do hábito ensina sobre como um homem se forma.

  • Continuada. A disposição só se sedimenta pela repetição. Nenhum ato isolado faz um caráter; a constância faz.
  • Desejada. O fim precisa ser querido. Sem o desejo do nobre, o hábito seria adestramento.
  • Vivida. A virtude se aprende diante do medo concreto, com o coração batendo, e nunca em abstrato.
  • Prática. Só o ato forma. O ato repetido educa o prazer, e o prazer educado abre a compreensão.
A formação do homem é continuada, desejada, vivida e prática. Aristóteles não a descreveu de outro modo, e a tradição cristã também não.

Os comentadores#

Três leitores ajudaram a chegar aí. Zingano permitiu ver o hábito sedimentando-se em disposição estável (ZINGANO, 2007, 2008). Broadie mostrou o vínculo entre habituação e escolha deliberada (BROADIE, 1991). Burnyeat, sobretudo, mostrou que habituar-se é educação do prazer e da percepção, pela qual o aprendiz passa do que deve ser feito ao porquê de fazê-lo (BURNYEAT, 1980). Sob essa luz, a coragem cívica se revela um degrau rumo ao agir por escolha do nobre, e a coragem confirma-se como o exemplo privilegiado da teoria da virtude.

O que fica em aberto#

O trabalho se limitou aos Livros II e III, e por isso deixou em aberto a articulação entre a habituação e a sabedoria prática, a phrónesis, que conduz a virtude à maturidade. Deixou em aberto também o diálogo com a ética das virtudes contemporânea e com o debate sobre formação moral e educação do caráter, campo em que a concepção aristotélica de hábito se mostra fecunda até hoje. São caminhos para outros textos. Sobre a virtude que guia todas as outras, já escrevi em Virtude da prudência: a que guia todas as outras.

Para a vida cristã#

Termino onde a série começou: na vida concreta. A doutrina do hábito é a mais consoladora das doutrinas morais, porque diz que ninguém está pronto e ninguém está perdido. O que somos hoje é o que fizemos repetidamente até hoje; o que seremos é o que faremos a partir de amanhã, com constância, com desejo do bem, no meio da vida real. A graça trabalha sobre isso. O Catecismo lembra que as virtudes humanas, adquiridas pela educação, por atos deliberados e pela perseverança no esforço, são purificadas e elevadas pela graça divina (Catecismo da Igreja Católica, n. 1810).

A série completa está reunida na trilha Tornar-se corajoso.

Este texto integra a série Tornar-se corajoso, que adapta, para o blog, meu trabalho de conclusão do curso de Filosofia na UNINTER: "Tornar-se corajoso: a habituação como formação da virtude da coragem na Ética a Nicômaco de Aristóteles".

Referências#

  • ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Mário da Gama Kury. 4. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.
  • BROADIE, Sarah. Ethics with Aristotle. Oxford: Oxford University Press, 1991.
  • BURNYEAT, M. F. Aristotle on learning to be good. In: RORTY, Amélie Oksenberg (ed.). Essays on Aristotle's Ethics. Berkeley: University of California Press, 1980. p. 69-92.
  • ZINGANO, Marco. Estudos de ética antiga. São Paulo: Paulus, 2007.
  • ZINGANO, Marco. Aristóteles: tratado da virtude moral; Ethica Nicomachea I 13 – III 8. São Paulo: Odysseus, 2008.
  • CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 1810.

Perguntas frequentes

Por que a formação do homem é continuada, desejada, vivida e prática?

Continuada porque a disposição só se sedimenta pela repetição; desejada porque o fim precisa ser querido; vivida porque a virtude se aprende diante do medo concreto; prática porque só o ato forma. As quatro vêm da doutrina aristotélica do hábito.

O que o trabalho deixou em aberto?

A articulação entre a habituação e a sabedoria prática (phrónesis), que conduz a virtude à maturidade, e o diálogo com a ética das virtudes contemporânea e com o debate sobre formação moral e educação do caráter.

O que a graça faz com as virtudes adquiridas pelo hábito?

O Catecismo ensina que as virtudes humanas, adquiridas pela educação, por atos deliberados e pela perseverança no esforço, são purificadas e elevadas pela graça divina. A graça trabalha sobre o que o hábito construiu.

João Guilherme Ferreira

João Guilherme Ferreira

Sócio da Anjo Comunicação, formado em Filosofia e pós-graduando em Liturgia pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro. É postulante à oblação no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro e atua há seis anos como diretor editorial da Missão Tenda do Senhor. É também idealizador e criador do aplicativo Ora et Labora, além de idealizador e coapresentador do podcast de mesmo nome.

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