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Entre a covardia e a temeridade: o fim que faz a coragem

A coragem tem dois vizinhos, a covardia e a temeridade. Mas o que a distingue de tudo o que se parece com ela é o fim: o belo ou nobre, to kalón. Quarto texto da série.

Etapa 4 de 7 da trilha Tornar-se corajoso

João Guilherme FerreiraJoão Guilherme Ferreira3 min de leitura
Estátua de mármore de uma figura armada com lança e escudo, contra um céu azul, ao lado de um cipresteFoto: Foto: Michal Vrba, Unsplash
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Se a virtude é um meio-termo, a coragem tem dois vizinhos. De um lado, a covardia: excesso de medo e falta de confiança. Do outro, a temeridade: excesso de confiança. Aristóteles descreve os dois, mas o que mais importa no seu texto é outra coisa: o que faz da coragem coragem não é o perigo que se enfrenta, mas o fim pelo qual se enfrenta.

Dois modos de errar#

O covarde erra por falta. Teme o que não deveria temer, teme demais e teme na hora errada, e por isso foge. A confiança, nele, é pouca. O temerário erra por excesso. Confia demais e avança antes de medir o perigo; com frequência se mostra ousado antes da hora e recua quando o perigo chega.

Os dois erros se parecem em algo: nenhum dos dois mede o perigo pela razão. Um é levado pelo medo, o outro pela confiança. O corajoso é o único em quem a razão decide.

O belo, ou o nobre#

Aristóteles diz que o corajoso enfrenta o perigo em vista do belo ou nobre, to kalón, e não por cálculo, ira ou ignorância (ARISTÓTELES, 2001). A palavra kalón é difícil de traduzir. Em grego, ela nomeia ao mesmo tempo o belo e o moralmente admirável: aquilo que merece ser feito por si mesmo.

O corajoso enfrenta o perigo em vista do belo. Quem enfrenta por cálculo, por ira ou por ignorância faz o mesmo gesto, e ainda assim faz outra coisa.

Isso muda a maneira de julgar os atos. Quatro homens podem atravessar o mesmo fogo. Um atravessa porque calculou que sairá ileso; outro porque está furioso; um terceiro porque não entendeu o risco; o quarto porque há alguém do outro lado que precisa ser salvo, e isso é belo. Só o quarto é corajoso no sentido pleno. Os outros três fazem o que o corajoso faz, sem fazê-lo como o corajoso faz. Guardemos essa distinção: ela vai resolver o problema do círculo.

Formação desejada#

Aqui aparece a segunda palavra do tema da série. A formação do homem é desejada porque o fim precisa ser querido. Ninguém se torna corajoso por acaso. É preciso ver o nobre e desejá-lo, escolher o ato por ele mesmo. Sem esse desejo, o hábito seria adestramento; com ele, é formação.

A leitura cristã do nobre#

Para o cristão, o belo pelo qual vale a pena enfrentar o medo tem um rosto. O mártir não morre por cálculo nem por ira, e certamente não por ignorância. Morre porque viu algo que vale mais que a própria vida. Aristóteles não conheceu esse rosto, mas descreveu com precisão a estrutura do ato: enfrentar o perigo por amor ao que é digno.

No próximo texto da série, as cinco formas de coragem que só se parecem com ela, e por que uma delas é um degrau.

Este texto integra a série Tornar-se corajoso, que adapta, para o blog, meu trabalho de conclusão do curso de Filosofia na UNINTER: "Tornar-se corajoso: a habituação como formação da virtude da coragem na Ética a Nicômaco de Aristóteles".

Referências#

  • ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Mário da Gama Kury. 4. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.

Perguntas frequentes

Quais são os dois vícios opostos à coragem?

A covardia, por falta de confiança e excesso de medo, e a temeridade, por excesso de confiança. A coragem é o meio-termo entre elas, determinado pela razão.

O que é to kalón?

É o belo ou nobre: aquilo que merece ser feito por si mesmo. Para Aristóteles, o corajoso enfrenta o perigo em vista do belo, e não por cálculo, ira ou ignorância. É o fim que especifica a virtude.

Dois atos iguais podem ter valor moral diferente?

Sim. Quem atravessa um perigo por cálculo, por ira ou por ignorância faz o que o corajoso faz, mas não como o corajoso faz. Essa distinção, que vem do fim do ato, é a chave de toda a série.

João Guilherme Ferreira

João Guilherme Ferreira

Sócio da Anjo Comunicação, formado em Filosofia e pós-graduando em Liturgia pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro. É postulante à oblação no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro e atua há seis anos como diretor editorial da Missão Tenda do Senhor. É também idealizador e criador do aplicativo Ora et Labora, além de idealizador e coapresentador do podcast de mesmo nome.

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Continuar: etapa 5 de 7