As cinco coragens que só parecem coragem
Aristóteles distingue cinco formas que apenas se assemelham à coragem: a cívica, a do experiente, a do impulso, a do otimista e a do ignorante. Um espelho para o leitor. Quinto texto da série.
Etapa 5 de 7 da trilha Tornar-se corajoso
Foto: Foto: Habib Beaini, UnsplashNeste artigo
Aristóteles sabia que a coragem verdadeira é rara e que muitas coisas se parecem com ela. Por isso, no Livro III da Ética a Nicômaco, ele distingue cinco formas que apenas se assemelham à coragem. A lista é um espelho: quase todos nós nos reconhecemos em alguma delas.
A coragem cívica#
A primeira e a mais próxima da verdadeira é a coragem cívica, movida pela lei e pelo pudor. É a coragem do cidadão que enfrenta o perigo porque a lei manda, porque a honra pede e porque a vergonha de recuar seria insuportável. Ela nasce de fora, da comunidade, e ainda não da escolha do nobre por ele mesmo.
Aristóteles a coloca em primeiro lugar de propósito. Agir por vergonha e por respeito à lei é um degrau em direção ao agir por escolha do nobre, ainda que não se identifique com ele (ARISTÓTELES, 2001). Voltaremos a esse degrau, porque ele ilumina o papel da habituação.
A coragem do experiente#
A segunda é a do experiente: quem parece corajoso porque conhece o perigo e sabe que ele é menor do que parece aos outros. Essa coragem se apoia no conhecimento do risco, e tende a se desfazer quando o risco se revela maior do que o esperado.
A coragem do impulso#
A terceira é a do impulso ou ânimo, thymós. É a coragem da ira, do sangue quente, de quem avança porque foi ferido. Ela tem algo da coragem, porque o corajoso também precisa de ânimo. Mas a ira não escolhe o nobre; ela reage. Quando a ira passa, o ato fica sem sustentação.
A coragem do otimista#
A quarta é a do otimista: quem enfrenta porque tem certeza de que vai vencer. Sua confiança vem da expectativa de sucesso, e desaparece quando o resultado se torna incerto.
A coragem do ignorante#
A quinta é a do ignorante, que avança porque não sabe o que enfrenta. É a mais frágil de todas: basta perceber o perigo para que ela se desfaça.
Cinco maneiras de fazer o que o corajoso faz sem ser corajoso. A diferença está no fim e na razão.
O espelho#
A utilidade dessa lista está na sinceridade que ela exige. Quantas vezes o que chamamos de coragem foi ira? Quantas vezes foi ignorância do risco? Quantas vezes foi o medo de passar vergonha? Aristóteles não despreza nenhuma dessas formas; ele apenas as chama pelo nome. E chama a cívica de degrau, porque é por ela que a maioria começa.
Vivida e prática#
A lição vale para a formação cristã. Muita gente começa a rezar por hábito de família, por respeito, por vergonha de não rezar. Isso é o equivalente da coragem cívica: uma virtude ainda apoiada de fora. O caminho da formação consiste em passar do apoio externo à escolha interior, sem desprezar o apoio que serviu de degrau.
No próximo texto da série, o problema que dá sentido a tudo isso: como praticar atos corajosos antes de ser corajoso.
Este texto integra a série Tornar-se corajoso, que adapta, para o blog, meu trabalho de conclusão do curso de Filosofia na UNINTER: "Tornar-se corajoso: a habituação como formação da virtude da coragem na Ética a Nicômaco de Aristóteles".
Referências#
- ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Mário da Gama Kury. 4. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.
Perguntas frequentes
Quais são as cinco coragens aparentes em Aristóteles?
A coragem cívica, movida pela lei e pelo pudor; a do experiente; a do impulso ou ânimo (thymós); a do otimista; e a do ignorante. Todas fazem o que o corajoso faz, sem o fim e a razão do corajoso.
Por que a coragem cívica é a mais próxima da verdadeira?
Porque nasce da lei e da honra. Agir por vergonha e por respeito à lei é um degrau em direção ao agir por escolha do nobre, ainda que não se identifique com ele. É por esse degrau que a maioria começa.
A ira pode ser coragem?
Tem algo dela, porque o corajoso também precisa de ânimo. Mas a ira não escolhe o nobre; ela reage. Quando passa, o ato fica sem sustentação.

João Guilherme Ferreira
Sócio da Anjo Comunicação, formado em Filosofia e pós-graduando em Liturgia pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro. É postulante à oblação no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro e atua há seis anos como diretor editorial da Missão Tenda do Senhor. É também idealizador e criador do aplicativo Ora et Labora, além de idealizador e coapresentador do podcast de mesmo nome.
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