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O que é uma disposição: a héxis e o meio-termo relativo a nós

Quando dizemos que alguém tem coragem, o que essa pessoa tem? Aristóteles responde com a noção de disposição, a héxis, e com o meio-termo relativo a nós. Segundo texto da série.

Etapa 2 de 7 da trilha Tornar-se corajoso

João Guilherme FerreiraJoão Guilherme Ferreira3 min de leitura
Pequenas pilhas de pedras equilibradas sobre uma prancha, com o mar desfocado ao fundoFoto: Foto: Patrick Fore, Unsplash
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Neste artigo

Quando dizemos que alguém tem coragem, o que exatamente essa pessoa tem? Não é um sentimento, porque sentimentos vêm e vão. Não é uma capacidade, porque capacidade todos temos e nem todos usam. Aristóteles responde com uma palavra que vale a pena aprender: héxis, a disposição.

Paixões, faculdades e disposições#

No Livro II da Ética a Nicômaco, Aristóteles distingue três coisas que existem na alma: as paixões, as faculdades e as disposições. Paixões são o que sentimos: medo, desejo, ira, alegria. Faculdades são a capacidade de sentir tudo isso. A disposição é outra coisa: é a maneira como estamos constituídos em relação às paixões, se bem ou mal.

A virtude é uma disposição: um estado estável do caráter. Estável é a palavra decisiva. Um ato corajoso isolado ainda não faz um homem corajoso. O que faz é a constância com que os atos se repetem até virarem um modo de ser.

Marco Zingano, referência em língua portuguesa para a leitura da virtude moral, observa que a noção de disposição é central para entender como o hábito se sedimenta em caráter estável, convertendo ações repetidas numa maneira firme e constante de ser (ZINGANO, 2008).

Ações repetidas viram uma maneira firme e constante de ser. É isso que Aristóteles chama de caráter.

O meio-termo relativo a nós#

A segunda metade da definição é tão famosa quanto mal compreendida. A virtude é um meio-termo, mesótes, situado entre um excesso e uma falta. Mas Aristóteles acrescenta duas coisas que mudam tudo: é um meio-termo relativo a nós e determinado pela razão, tal como o determinaria o homem dotado de sabedoria prática (ARISTÓTELES, 2001).

Relativo a nós quer dizer que o meio não é uma média aritmética. A quantidade de comida que é excesso para quem passa o dia sentado pode ser falta para um atleta. O risco que seria temeridade para um pai de família pode ser dever para um bombeiro. O meio-termo é medido pela pessoa, pela situação e pelo fim, e é a razão que o mede.

Determinado pela razão quer dizer que não há virtude sem juízo. Sentir medo na medida certa exige saber o que está em jogo. Por isso a virtude de caráter, embora nasça do hábito, não é cega: ela pede a razão a cada passo.

Por que isso importa para a coragem#

Guardemos as duas ideias, porque a coragem vai ser o caso exemplar de ambas. Ela é uma disposição: ninguém é corajoso por um dia. E ela é um meio-termo: entre o medo em excesso e a confiança em excesso, há um ponto que a razão encontra e que o hábito torna estável.

Formação continuada#

Aqui aparece a primeira das quatro palavras que dão o tema à série. A formação do homem é continuada porque a disposição só se sedimenta pela repetição. Nenhum ato, por mais belo, cria um caráter. Mil atos, feitos com constância, criam. Isso vale para a coragem e vale para a vida de oração: a fidelidade diária, sem brilho, é o que faz de uma prática uma disposição.

No próximo texto da série, a coragem propriamente dita: o medo, a confiança e o que Aristóteles quer dizer com temer as coisas devidas.

Este texto integra a série Tornar-se corajoso, que adapta, para o blog, meu trabalho de conclusão do curso de Filosofia na UNINTER: "Tornar-se corajoso: a habituação como formação da virtude da coragem na Ética a Nicômaco de Aristóteles".

Referências#

  • ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Mário da Gama Kury. 4. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.
  • ZINGANO, Marco. Aristóteles: tratado da virtude moral; Ethica Nicomachea I 13 – III 8. São Paulo: Odysseus, 2008.

Perguntas frequentes

O que é héxis em Aristóteles?

É a disposição: um estado estável do caráter, distinto das paixões e das faculdades. A virtude é uma héxis, uma maneira firme e constante de ser, que a repetição de atos sedimenta.

O meio-termo aristotélico é uma média?

Não. É um meio-termo relativo a nós, entre um excesso e uma falta, determinado pela razão, tal como o determinaria o homem dotado de sabedoria prática. O ponto certo depende da pessoa, da situação e do fim.

Quem é Marco Zingano?

Referência em língua portuguesa para a leitura da virtude moral em Aristóteles. Sua análise da héxis esclarece como a repetição de atos se sedimenta em caráter estável.

João Guilherme Ferreira

João Guilherme Ferreira

Sócio da Anjo Comunicação, formado em Filosofia e pós-graduando em Liturgia pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro. É postulante à oblação no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro e atua há seis anos como diretor editorial da Missão Tenda do Senhor. É também idealizador e criador do aplicativo Ora et Labora, além de idealizador e coapresentador do podcast de mesmo nome.

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A coragem é a primeira virtude que Aristóteles examina em detalhe. Ela ordena o medo e a confiança, e se prova diante do mais temível. Terceiro texto da série.

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