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Temer o que se deve, como se deve, quando se deve

A coragem é a primeira virtude que Aristóteles examina em detalhe. Ela ordena o medo e a confiança, e se prova diante do mais temível. Terceiro texto da série.

Etapa 3 de 7 da trilha Tornar-se corajoso

João Guilherme FerreiraJoão Guilherme Ferreira3 min de leitura
Homem de pé à beira de um penhasco sobre o mar, em meio à neblinaFoto: Foto: Ana Gabriel, Unsplash
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Neste artigo

A coragem é a primeira virtude que Aristóteles examina em detalhe, nos capítulos 6 a 9 do Livro III da Ética a Nicômaco. Não é por acaso. Ela diz respeito às duas paixões mais elementares, o medo e a confiança, e se mostra com mais clareza diante daquilo que qualquer pessoa reconhece como o mais temível: a morte.

O medo e a confiança#

Toda virtude de caráter se define pelas paixões que ordena. A coragem ordena o medo e a confiança. Ter medo é natural, e Aristóteles nunca pede que deixemos de sentir. O que ele descreve é uma pessoa em quem o medo e a confiança estão no lugar certo.

A frase central do texto merece ser lida devagar: o corajoso não é o que nada teme, mas o que teme as coisas devidas, pela razão devida, do modo e no momento devidos (ARISTÓTELES, 2001).

Temer as coisas devidas, pela razão devida, do modo e no momento devidos. Isso é coragem.

Cada um desses "devidos" é uma pergunta. O que se deve temer? Há males reais, e há males que só parecem. Por que se deve temer? Porque a razão reconhece um mal real. De que modo e quando? Sem pânico e sem indiferença, na hora em que o perigo é de fato perigo.

Diante do mais temível#

Aristóteles diz que a coragem se manifesta de modo eminente diante do que é mais temível, a morte, e sobretudo da morte no combate, em que o perigo é maior e mais nobre o enfrentamento. O exemplo é o do soldado, porque no mundo grego era ali que a morte e a honra se encontravam com mais clareza.

Não é preciso ser soldado para entender o argumento. Ele diz que a coragem se prova onde o custo é mais alto. Quem sustenta a verdade quando isso custa a reputação, quem permanece ao lado de um doente quando isso custa o próprio conforto, quem enfrenta uma injustiça quando calar seria mais fácil: em cada caso, o medo é real e a confiança é medida.

Uma virtude que se vive#

A terceira palavra do tema da série aparece aqui. A formação do homem é vivida porque a coragem não se aprende em abstrato. Ela se aprende diante de um medo concreto, com o coração batendo. Pode-se ler sobre coragem a vida inteira e nunca ser corajoso. O que forma o caráter é o ato vivido.

A fortaleza cristã#

A tradição cristã recebeu essa doutrina e a chamou de fortaleza, uma das quatro virtudes cardeais. O Catecismo a define como a virtude moral que assegura, nas dificuldades, a firmeza e a constância na busca do bem (Catecismo da Igreja Católica, n. 1808). Já escrevi sobre ela em Virtude da fortaleza: firmeza no bem diante do medo. O que Aristóteles acrescenta é a anatomia do medo bem ordenado.

No próximo texto da série, os dois vícios que cercam a coragem e o fim que a distingue de tudo o que se parece com ela.

Este texto integra a série Tornar-se corajoso, que adapta, para o blog, meu trabalho de conclusão do curso de Filosofia na UNINTER: "Tornar-se corajoso: a habituação como formação da virtude da coragem na Ética a Nicômaco de Aristóteles".

Referências#

  • ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Mário da Gama Kury. 4. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.
  • CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 1808.

Perguntas frequentes

O corajoso não sente medo?

Sente. Para Aristóteles, o corajoso teme as coisas devidas, pela razão devida, do modo e no momento devidos. A coragem ordena o medo e a confiança; ela não os elimina.

Por que Aristóteles fala tanto da morte no combate?

Porque a coragem se manifesta de modo eminente diante do mais temível, a morte, e sobretudo da morte no combate, em que o perigo é maior e mais nobre o enfrentamento. O argumento vale para qualquer situação em que o custo é alto.

Qual a relação entre a coragem de Aristóteles e a fortaleza cristã?

A tradição cristã recebeu essa doutrina e a chamou de fortaleza, uma das quatro virtudes cardeais. O Catecismo a define como a virtude moral que assegura, nas dificuldades, a firmeza e a constância na busca do bem.

João Guilherme Ferreira

João Guilherme Ferreira

Sócio da Anjo Comunicação, formado em Filosofia e pós-graduando em Liturgia pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro. É postulante à oblação no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro e atua há seis anos como diretor editorial da Missão Tenda do Senhor. É também idealizador e criador do aplicativo Ora et Labora, além de idealizador e coapresentador do podcast de mesmo nome.

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