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Ninguém nasce corajoso: a virtude como hábito em Aristóteles

Para Aristóteles, a virtude de caráter vem do hábito: tornamo-nos corajosos praticando atos corajosos. Primeiro texto da série sobre a coragem na Ética a Nicômaco.

Etapa 1 de 7 da trilha Tornar-se corajoso

João Guilherme FerreiraJoão Guilherme Ferreira4 min de leitura
Mãos de um entalhador trabalhando a madeira com formão e martelo, entre lascasFoto: Foto: Sergio Peláez, Unsplash
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Neste artigo

A ética de Aristóteles parte de uma convicção que muda o modo de olhar para a própria vida: a excelência moral não é um dom inato, mas algo que se conquista pelo exercício. Ninguém nasce justo, ninguém nasce corajoso. Nasce-se com a capacidade de vir a ser, e é o exercício que a aperfeiçoa.

Este é o primeiro texto de uma série de sete sobre a coragem na Ética a Nicômaco. A série tem uma tese de fundo, que dá nome à trilha: a formação do homem é continuada, desejada, vivida e prática. Nenhuma dessas quatro palavras foi escolhida por acaso, e cada texto vai mostrar de onde elas vêm.

Duas virtudes, dois caminhos#

Aristóteles abre o Livro II da Ética a Nicômaco distinguindo a virtude intelectual, que se deve sobretudo ao ensino, da virtude de caráter, que resulta do hábito. A palavra grega para hábito é éthos, e é dela que vem a palavra ética. A ética, no sentido aristotélico, é o estudo daquilo que se torna costume na alma.

A distinção importa porque muda o método. Uma virtude intelectual se aprende ouvindo, lendo, sendo ensinado. Uma virtude de caráter se aprende fazendo. Nenhuma virtude moral surge em nós por natureza: temos a capacidade natural de recebê-la, mas é o exercício que a aperfeiçoa (ARISTÓTELES, 2001).

O construtor e o citarista#

O exemplo de Aristóteles é o mais simples possível. O construtor se forma construindo. O citarista se forma tocando a cítara. Ninguém aprende a construir casas antes de erguer a primeira parede, e ninguém aprende a tocar antes de errar as primeiras notas. Do mesmo modo, tornamo-nos justos praticando atos justos, temperantes praticando atos temperantes, corajosos praticando atos corajosos.

Tornamo-nos corajosos praticando atos corajosos. A virtude é conquistada no exercício, e ninguém a recebe de presente.

Há uma consequência prática imediata, e Aristóteles a tira sem rodeios: a educação e as leis importam. Habituar bem desde a juventude é o que decide a formação do caráter.

Quem foi criado numa casa em que se dizia a verdade tem meio caminho andado para ser verdadeiro. Quem foi treinado desde cedo a suportar pequenos incômodos sem fugir tem meio caminho andado para a coragem. O restante do caminho, como veremos, é trabalho de toda a vida.

Uma pergunta que fica#

Mas aqui nasce a dificuldade que atravessa toda a série. Se nos tornamos corajosos praticando atos corajosos, como praticar tais atos antes de já sermos corajosos? Parece um círculo: para agir bem, seria preciso já ser bom; para ser bom, seria preciso já agir bem.

Aristóteles conhece a objeção e a responde no capítulo 4 do Livro II. A resposta vai ocupar o sexto texto da série. Antes dela, é preciso entender o que ele chama de disposição, o que é o meio-termo, o que é a coragem e o que ela não é. Sem esse caminho, a resposta pareceria um truque. Com ele, parece o que é: uma descrição precisa de como qualquer pessoa aprende a ser boa.

O que isso muda na vida cristã#

O leitor católico vai reconhecer aqui algo que o Catecismo diz com outras palavras: as virtudes humanas se adquirem pela educação, por atos deliberados e por uma perseverança sempre renovada no esforço (Catecismo da Igreja Católica, n. 1804). A graça supõe esse trabalho e o eleva. Já escrevi sobre esse caminho em Como desenvolver virtudes: manual para o dia a dia.

No próximo texto da série, o que Aristóteles chama de disposição, e por que a virtude é um meio-termo que não é o mesmo para todos.

Este texto integra a série Tornar-se corajoso, que adapta, para o blog, meu trabalho de conclusão do curso de Filosofia na UNINTER: "Tornar-se corajoso: a habituação como formação da virtude da coragem na Ética a Nicômaco de Aristóteles".

Referências#

  • ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Mário da Gama Kury. 4. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.
  • CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 1804.

Perguntas frequentes

Para Aristóteles, a coragem é inata?

Não. Nenhuma virtude moral surge em nós por natureza. Temos a capacidade natural de recebê-la, mas é o exercício que a aperfeiçoa. A coragem se conquista praticando atos corajosos.

De onde vem a palavra ética?

Do grego éthos, hábito. Aristóteles distingue a virtude intelectual, que se deve sobretudo ao ensino, da virtude de caráter, que resulta do hábito. A ética, nesse sentido, estuda o que se torna costume na alma.

Por que a educação importa tanto na ética de Aristóteles?

Porque habituar bem desde a juventude é o que decide a formação do caráter. Quem foi treinado desde cedo a agir bem tem meio caminho andado; o restante é trabalho de toda a vida.

João Guilherme Ferreira

João Guilherme Ferreira

Sócio da Anjo Comunicação, formado em Filosofia e pós-graduando em Liturgia pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro. É postulante à oblação no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro e atua há seis anos como diretor editorial da Missão Tenda do Senhor. É também idealizador e criador do aplicativo Ora et Labora, além de idealizador e coapresentador do podcast de mesmo nome.

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