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O círculo do hábito: como praticar atos corajosos sem ser corajoso

Se nos tornamos corajosos praticando atos corajosos, como praticá-los antes de ser corajoso? Aristóteles responde no capítulo 4 do Livro II. Sexto texto da série.

Etapa 6 de 7 da trilha Tornar-se corajoso

João Guilherme FerreiraJoão Guilherme Ferreira4 min de leitura
Escada em espiral dos Museus do Vaticano vista de cima, com pessoas subindo pelas voltasFoto: Foto: Nicolas Hoizey, Unsplash
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Chegamos à dificuldade anunciada no primeiro texto. Se nos tornamos corajosos praticando atos corajosos, parece que já deveríamos ser corajosos para praticá-los. A habituação seria circular, e a doutrina inteira desabaria. Aristóteles enfrenta a objeção no capítulo 4 do Livro II, e a resposta é uma das páginas mais finas da Ética a Nicômaco.

Arte e virtude#

A resposta começa por uma distinção entre a produção técnica e a ação virtuosa. Nas artes, a excelência está no produto. Uma mesa bem-feita é bem-feita independentemente do estado de quem a fez; pode ter sido feita de má vontade, por acaso ou por imitação, e continua sendo uma boa mesa.

Na virtude é diferente. Não basta que o ato tenha certo conteúdo; é preciso que o agente o pratique de determinada maneira (ARISTÓTELES, 2001). O ato corajoso inclui quem o faz.

As três condições#

Para que um ato conte como plenamente virtuoso, Aristóteles exige três condições:

  1. que o agente aja com conhecimento, sabendo o que faz;
  2. que escolha o ato por ele mesmo, e não por outra coisa;
  3. que aja a partir de um caráter firme e imutável.

Agora o círculo se desfaz. O iniciante realiza atos que são corajosos quanto ao conteúdo, mas ainda não os pratica como o corajoso os pratica. Ele faz o que o corajoso faz sem fazê-lo do modo como o corajoso o faz. Não há contradição em praticar atos corajosos antes de ser corajoso, porque praticar o ato e praticá-lo como o virtuoso são coisas distintas.

Há diferença entre fazer o que o corajoso faz e fazê-lo do modo como ele o faz. Essa distinção desfaz o círculo.

Educação do prazer e da percepção#

O ensaio clássico de M. F. Burnyeat, "Aristotle on learning to be good", aprofunda esse ponto. A habituação não é adestramento mecânico, mas educação do prazer e da percepção (BURNYEAT, 1980). O aprendiz começa por fazer as coisas certas: apreende o que deve ser feito. Pela prática, passa a sentir prazer no que é nobre. E chega, por fim, a perceber e a compreender o porquê de agir assim.

Sarah Broadie vai na mesma direção ao vincular a habituação à formação do caráter estável que sustenta a escolha deliberada (BROADIE, 1991). O resultado é que o tornar-se e o agir não coincidem num mesmo instante. Tornar-se corajoso é um processo gradual, no qual o agente, agindo bem sob orientação e hábito, vai constituindo a disposição que tornará seus atos plenamente seus.

Formação prática#

Aqui está a quarta palavra do tema da série. A formação do homem é prática porque só o ato forma. Não há atalho pela teoria. O que Burnyeat mostra é ainda mais bonito: o ato repetido educa o gosto. A pessoa que começa fazendo o certo por obediência termina fazendo o certo por prazer, e então por compreensão. O hábito prepara a liberdade em vez de substituí-la.

O noviço#

Quem conhece a vida monástica reconhece aqui o noviciado. O noviço faz o que o monge faz: levanta na mesma hora, canta o mesmo Ofício, guarda o mesmo silêncio. Ainda não o faz como o monge o faz. Mas é fazendo que ele se torna monge, e ninguém pensa que isso seja um círculo.

No último texto da série, o que fica em aberto: a coragem, a sabedoria prática e a formação do homem hoje.

Este texto integra a série Tornar-se corajoso, que adapta, para o blog, meu trabalho de conclusão do curso de Filosofia na UNINTER: "Tornar-se corajoso: a habituação como formação da virtude da coragem na Ética a Nicômaco de Aristóteles".

Referências#

  • ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Mário da Gama Kury. 4. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.
  • BROADIE, Sarah. Ethics with Aristotle. Oxford: Oxford University Press, 1991.
  • BURNYEAT, M. F. Aristotle on learning to be good. In: RORTY, Amélie Oksenberg (ed.). Essays on Aristotle's Ethics. Berkeley: University of California Press, 1980. p. 69-92.

Perguntas frequentes

Por que a habituação parece circular?

Porque, se nos tornamos corajosos praticando atos corajosos, parece que já deveríamos ser corajosos para praticá-los. Aristóteles examina a objeção no capítulo 4 do Livro II e mostra que a circularidade é apenas aparente.

Quais são as três condições do ato virtuoso?

Que o agente aja com conhecimento, que escolha o ato por si mesmo e que aja a partir de um caráter firme e imutável. O iniciante ainda não cumpre as três; o corajoso cumpre.

O que Burnyeat acrescenta à leitura de Aristóteles?

Que a habituação é educação do prazer e da percepção: o aprendiz começa por fazer o que deve ser feito, passa a sentir prazer no que é nobre e chega a compreender o porquê de agir assim.

João Guilherme Ferreira

João Guilherme Ferreira

Sócio da Anjo Comunicação, formado em Filosofia e pós-graduando em Liturgia pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro. É postulante à oblação no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro e atua há seis anos como diretor editorial da Missão Tenda do Senhor. É também idealizador e criador do aplicativo Ora et Labora, além de idealizador e coapresentador do podcast de mesmo nome.

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